Júlia Caré Incluo-me no número dos sócios do Sindicato dos Professores da Madeira que qualificam de estranha esta necessidade que a actual Direcção sentiu de expressar gratidão ao Presidente do Governo Regional, no acto inaugural da nova sede do SPM, pela concessão de fundos estruturais europeus, que constituem 47% do custo total da obra. Em democracia, o relacionamento entre Sindicatos e Governos é institucional, no cumprimento de direitos, deveres, obrigações e responsabilidades, não podendo ser pervertido por actos de agradecimento. Estamos em campanha eleitoral para eleições regionais. É inevitável a colagem desta inauguração, presidida pelo governante, na dupla qualidade de candidato e dirigente político, ao arraial de inaugurações onde há tanto tempo se confunde o institucional com a propaganda eleitoral nesta terra. É inevitável o travo amargo de ver uma instituição onde se aprendeu, sempre se pugnou e afirmou liberdade, a parecer pagar favores políticos ao poder, por uma confusão de planos de acção. O preço do sonho? Já chega o arraial de submissões e lealdades compradas, cobradas em moeda cívica e exercício de cidadania democrática. E porque hoje se celebra o Dia Mundial do Professor, gostaria de lembrar o valor ético da função educativa e da acção docente perante a sociedade. As nossas atitudes também são lições. Ensinamos como somos e o que somos. Que lição de isenção e independência face ao poder, a matriz da acção sindical? A propósito de gratidão, fecha-se com um excerto e sugere-se a leitura integral de "O operário em construção" de Vinícius de Morais: -Loucura! - gritou o patrão / Não vês o que te dou eu? / - Mentira! - disse o operário / Não podes dar-me o que é meu.