Há coisa que os madeirenses - gente hospitaleira, honesta e trabalhadora - ainda não perceberam. E não é por alguma dificuldade de compreensão, é por que continua a tapar-se o sol com a peneira, como se a Região vivesse um conto de fadas, que só pode existir nas cabeças dos que a (des) governam.

Como se fosse possível continuar a vida dos brandos costumes de sempre, embalada pelas ondas do Atlântico e o vento a soprar no til e no barbusano.

Não nos iludamos. Há uma vida antes e depois de 9 de Outubro. O que está a acontecer na Região neste momento é um Carnaval prolongado, mas a seguir vem a Quaresma e o jejum. Não haverá fartura, nem se pode contar com os mesmos de sempre.

Porque se abusou da solidariedade e confiança alheia. A Região comportou-se como um pobre que pedia numa instituição ao abrigo da situação de desfavorecido que tinha (e tem, a insularidade é fardo), mas ao mesmo tempo pedia noutro lado (endividando-se para uma obra, muita de carácter duvidoso). É como se o pobre continuasse a pedir para comer, mas vivesse num palácio.

Hoje a ilha encantada é um poço de contradição económica, tão díspar como a paisagem que a compõem. É uma terra que ostenta a riqueza do desenvolvimento lado-a-lado com pobreza de bens e de saber. Com uma agravante: A torneira fechou. Porque no continente (e ninguém pode criticá-lo) não se está para pagar mais os desvarios de quem decidiu sempre a pensar na próxima re-eleição e anulou o bom que fez com um apego ao poder sem precedentes na democracia portuguesa.

Há zonas no país onde, efectivamente, os efeitos da interioridade não são menos graves que os da insularidade e não é justo que os cidadãos destas localidades paguem o que não têm para ajudar quem não merece. A culpa não é dos madeirenses, mas de quem os governa. No entanto, na prática e para efeitos contabilísticos, vai dar tudo ao mesmo.

Há uma vida nova a partir de 10 de Outubro. E os madeirenses terão de ser solidários desta vez e não aguardar que um toque de varinha de condão resolva os seus problemas.

Não se espera nada de bom, mas está na altura do povo insular mostrar uma vez mais a sua garra na adversidade. E aprender com os erros. Convenhamos: Algum dia tinha de vir a conta.