As campanhas eleitorais são, marcadamente, um tempo de exageros. Uma espécie de tempo de Carnaval, em que são desculpados os ‘travestidos’, os que não são aquilo que parecem. Ninguém leva a mal… mas a confusão estabelecida proporciona os piores cenários, logo enfeitados pelas piores razões, exasperando ódios e arredando do verdadeiro propósito os que procuram explicar ou esclarecer os cidadãos, vendendo ideias e propostas de boa governação. Propósitos baldados, já que a música que entretém os incautos toca com maestro sabichão e conhecedor das fraquezas da clientela e ciente da medida certa da sua gula. Quem não levou a guloseima certa ou o discurso esperado, fica no canto do prato, porque ninguém arrisca provar, sequer, uma ementa desconhecida, se bem que tenha ingredientes que possam perceber alguma qualidade. No tempero estará também o segredo do mestre que, nem precisa de o ser em culinária. Tem de ser mestre na arte de convencer e de mostrar que quando se erra, nem sempre é pecado. Acima estão os legítimos anseios do povo, as suas necessidades e a satisfação das clientelas. Atenuantes para o perdão decretado unilateralmente, em cima do palco, observado pelos olhares esbugalhados de quem nada percebeu, procurando entre as bandeiras que se agitam aqueles que ali devem estar a idolatrar quem lhes promete servir desinteressadamente. Enfim, lá ia eu, também, levado na verborreia do falar bonitinho, mesmo que ninguém entenda nada… Mas é uma tendência, sem cores e sem siglas, que assoberba os candidatos nas horas desta aflição de procurar votos e apoiantes… Quase igual ao desespero do agricultor que cava na terra árida ou do lavrador espremendo as tetas secas da sua melhor vaca de leite. Estamos praticamente no final da campanha, um tempo que estava a eternizar-se, em declarações disparatadas, em ajustes de contas pacóvios e em atitudes mesquinhas e reveladoras de pouco tino e de alguma perturbação mental. Pelo meio meteram-se dossiers importantes, perturbadores da vida democrática e incluídos na agenda político-partidária num momento de muita agitação, propício a debates escaldantes, muitas vezes escapando ao bom-senso, com argumentos improfícuos e vãos que negam a razão a quem se atreveu a ajustar contas em tempo de campanha eleitoral. Queremos que a calma volte, que o trabalho se produza mais eficaz, que ganhemos razões de sobra para não ficarmos encalhados no Atlântico. Sejam quais forem os protagonistas políticos, temos de chamá-los à razão, para que saibam que nem sempre estão rodeados das melhores pessoas, e que o que muitas vezes lhe sobra em vontade e discurso, lhes falta em sobriedade e valor. É bom que nos convençamos que esta Madeira que dizem amar, precisa de mais. A Madeira precisa da humildade de todos os madeirenses para atravessar um período difícil da sua história. Não precisa do revanchismo dos complexados, que querem mudar para o palco do tempo novo os constrangimentos que não souberam resolver no passado ou os fantasmas das histórias de explorados e exploradores, que não exorcizaram e que, quando despertos, se entrecruzam em caminhos de vingança e ardem em ódios. Basta, temos de saber descobrir a Madeira verdadeira. Esqueçam a Velha e a Nova. Acho que nenhuma trouxe a bondade que se queria, nem a amizade que se deseja. Caminhemos para uma direcção certa, de inovação e com melhores horizontes. Com esperança e fraternidade para não se virar contra nós, como má propaganda, tudo o que de desacertado se disse nestes dias- É preciso acalmar os novos inimigos que, naturalmente, os verdadeiros Madeirenses não quiseram criar. A obra está feita, não está paga. Merecê-mo-la como herança para os nossos filhos, porque estes não a querem aceitar penhorada.