A Alemanha vive um dilema. Se apoia de facto os maus da Europa (destaque para a Grécia) vai perder algum dinheiro. Se não apoia vai perder muito mais. É fácil de perceber que um cidadão disciplinado alemão - ou de qualquer país - não aceita facilmente pagar uma crise grega, portuguesa, espanhola ou outra. Os alemães têm horror à má governação, ao desperdício e à corrupção. Afinal foram estes os grandes motivos que levaram os gregos e os portugueses à falência. No entanto não vale a pena centrarmo-nos apenas em avaliações sobre o passado. É verdade que essa avaliação deve ser feita. Não só para evitar que se repitam os mesmos erros do passado como também deveria ser feita essa avaliação para se julgar e condenar os governantes responsáveis pelas políticas desastrosas que levaram estes países à humilhante ruina (veja-se o bom exemplo do julgamento do antigo primeiro-ministro da Islândia). No entanto a situação é tão grave que a grande atenção, neste momento, deve ser dada às soluções urgentes e de rápida implementação. Defender a Grécia ou Portugal é defender o Euro. Logo é defender a Alemanha. Nestas situações devemos ser realistas. O Euro é liderado - e só pode ser - pela maior economia da Europa. Logo a salvação do Euro só poderá ser feita pela Alemanha. Só um país está em condições de liderar esse salvamento e pagar por isso: a Alemanha. Aliás o grande erro da Europa foi julgar - e aí os germânicos tem muita culpa - que éramos todos iguais. Que éramos todos alemães. Não éramos e está provado. Portugal gastou como se fosse alemão, mas com uma economia pobre. A Grécia igual. A Espanha também. Agora chegou a factura. O grande erro alemão foi despertar tarde - ou fazer que não via - para a realidade dos seus colegas do euro. Aliás a Alemanha também ajudou em algumas aventuras irresponsáveis (veja-se o caso dos submarinos comprados pela Grécia e por Portugal aos alemães). Como é evidente só não viu quem não quis: Portugal e a Grécia eram países mal governados. Mais cedo ou mais tarde acabariam como acabaram. Como é evidente, e perante as circunstancias, o que pode parecer mais justo é expulsar os políticos gregos do euro e mesmo da União Europeia. No entanto a grande vítima dessa atitude seria o próprio povo grego e não a sua péssima classe política dominada por duas famílias (os Karamalis e os Pampandreau). Outra questão que se coloca: a factura dessa expulsão compensaria? Penso que não. Desde logo o problema da dívida grega é de quem a emprestou e não da Grécia. É que não existam dúvidas: os gregos não vão pagar o que devem porque não têm como. É por isso que de uma vez por todas os países do euro - com destaque para a Alemanha - devem renegociar a dívida grega (perdoando parte e estabelecendo novos prazos de pagamento). Ganharia a Europa. Ganharia o euro. Os que perderiam mais seriam os bancos que irresponsavelmente emprestaram dinheiro tanto a Portugal como à Grécia. Merecem pagar parte da factura. Esta lição dada pela situação da Grécia e de Portugal deve servir como lição para a União Europeia. Como em tudo na vida "somos todos iguais; todos diferentes". A irresponsabilidade ou demagogia de muitos dirigentes na Europa foi julgarem apenas que "somos todos iguais". Essa irresponsabilidade vem de longe. O alargamento da Europa de 15 para 27 foi o melhor exemplo disso. Alguém de bom senso considera que a Roménia ou a Bulgária tinham condições mínimas para fazer parte da União Europeia? Técnicamente não tinham. Tratou-se de uma decisão meramente política tomada por dirigentes que agora são recordados como "os grandes líderes do passado". É verdade que os actuais líderes da Europa são muito fracos mas os do passado recente não foram melhores. Alguns dos actuais erros vêm precisamente do tempo deles.
Paulo Neves