Há em cada regresso à ilha um lado doloroso: perceber o que se destruiu em cada entretanto. Tento adiar notícias dessas o mais possível, como se a minha ignorância as tornasse menos verdadeiras. Amiúde, recebo-as ao passar um túnel ou uma ponte, ainda na estrada que liga Santa Cruz a São Vicente. Há um novo túnel ou uma nova ponte ou um novo mamarracho. Durante anos, sentia-me uma espécie de Alice a entrar num mundo em forma de Gruyère, um queijo amarelo, duro, picante, com pequenos buracos. Nos últimos tempos, vem-me à cabeça a imagem de um Emmental, um queijo amarelo, duro, picante, com enormes buracos. Não me interprete mal. Adoro queijo. Adoro um bom queijo, com um bom pão e um bom vinho. Mas já há túneis e pontes e mamarrachos de sobra. A natureza não absorve tudo. E, que se saiba, não crescem notas de 500 euros em cada loureiro, vinhático, til ou barbusano. O bom senso pede cuidado. É toda uma paisagem que se destrói (a paisagem de uma ilha abençoada por uma floresta húmida, subtropical, relíquia). E é todo um futuro que se compromete (acreditará alguém que os turistas anseiam por túneis e pontes e cimento sobreposto em cada encosta?). Com dinheiro de todos nós - madeirenses, portugueses, europeus. Com dinheiro pedido em nome de todos nós - sem nós sabermos, sem nós assentirmos. Olho à minha volta e aqui, no Porto, só vejo gente indignada. Indignada com quem contraiu uma dívida colossal e se orgulha de esconder encargos assumidos e não pagos. Indignada com o dinheiro desbaratado em espetadas e vinho seco ou em obra desnecessária ou agressora - não com o dinheiro gasto a construir escolas, centros de saúde, habitação social ou a alargar as redes de electricidade, água canalizada ou saneamento básico. Já falta pachorra para o discurso político. O senhor da ilha monta a mesma peça de teatro, com algumas variações, desde 1978. Parece um mestre na arte de fabricar um inimigo comum. Só um inimigo comum pode unir um povo em torno de um pretenso herói, não é? Sim, todos os dias, aqui, no Porto, ouço pedir, pelo menos, algum decoro. Chegado a este ponto indizível, como se pode prometer mais construção? Às vezes, apetece responder à letra: "Se aprecia tanto fazer buracos, vá fazer piercings com o seu dinheiro, em vez de túneis com o dinheiro de todos nós." Eu conheço um piercer muito à frente, com loja aberta ali na Rua dos Mártires da Liberdade. Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público

Ana Cristina Pereira