Há palavras cujo sentir não permite meios termos. A fé e a inocência são duas delas. Não se acredita muito ou pouco. Acredita-se e pronto. Acreditar pouco presume sempre uma negação ou um estar predisposto a pelo menos colocar em causa, ter dúvidas, abrir caminho a uma série de questões.

Sei por dentro, desde os tempos primordiais da infância, que a fé a a inocência têm de ser abraçadas por inteiro. São como o amor e o ódio. Não se ama pouco, nem de odeia mais ou menos. É um tudo ou nada, algo que se sente na totalidade, sem constrangimentos de gramática ou de condição.

Quando quero mesmo saber se tenho fé ou se algo merece aquele acreditar inocente e primeiro, é à infância que recorro, à exacta medida e valor que esses conceitos tinham então. Há que passar pelo crivo desse tempo de possibilidades, pela medida certa das coisas quando se acreditava sem reservas ou duvidava sem recurso.

A fé a a inocência pressupunham aceitar dogmas e acreditar com a força da existência de fadas ou de princesas. Era estar deitado com as costas no chão a olhar o céu de estrelas e tentar contá-las sem apontar com o dedo, porque se sabia que isso faria crescer verrugas na pele. Era acreditar que o quebrar juramentos, feitos de mão ao peito para serem mais verdadeiros e próximos ao coração, podia fazer acontecer coisas terríveis capazes de destruir o mundo e a casa, que, na altura, eram uma e a mesma coisa. Era acreditar em pecados mortais, no inferno e no céu da catequese. Nas histórias com que o colégio e a Igreja, à vez, tentavam formatar a nossa alma de pecadores em processo contínuo de salvação.

Sim, era acreditar em coisas aparentemente inexplicáveis, dúbias e até mesmo contraditórias. Mas há um tempo para se acreditar assim, com a medida certa das certezas absolutas, e também há um limite para a credibilidade que se pode dar quase sem defesa ou dúvida.

Infelizmente, creio que esse limite não consegue ultrapassar o processo de crescimento, aquele que nos faz dispensar bancos e cadeiras para chegar aos locais incacessíveis ou proibidos.

Creio que a fé e a inocência não resistem a partir do momento em que já não precisamos de apetrechos de carpintaria para ver o mundo por inteiro. Quando tudo passa a estar acessível aos olhos e ao coração, sem necessidade de subir a um ponto mais alto, a fé e a inocência precisam da realidade para serem levadas a sério. Precisam de credibilidade e não de magia.

Estar ao mesmo nível do mundo torna-nos pouco crentes, porque se pode ver a realidade de qualquer ponto, mesmo deitados sob um céu de estrelas a contá-las com o dedo em riste, sem medo das verrugas ou dos deuses que castigam pecados e atrevimentos.

E tudo isto exige aos outros que se tornem mais credíveis, que nos convençam com mais empenho, que nos provem a realidade. Do ponto em que estamos, já não precisamos de subir mais alto para acreditar ou agarrar a verdade. Ela vê-se de todos os lados, como o mar nas ilhas.

Por isso, nesta altura em que precisamos de ser convencidos, ou de recuperar a fé e a inocência, é preciso que os que nos querem convencer se lembrem de que não há lugares fora da vista ou do coração onde esconder a verdade. Na idade maior, já não se consegue esconder no ponto mais alto da casa o que não se quer mostrar. Do ponto onde chegamos, vemos o mundo sem bancos ou necessidade de nos pormos em bicos de pé, de pescoço esticado a tentar perceber a engrenagem que nos move a todos.