Um dia destes, ao passar pelo terreiro da loja do meu vizinho, dei de caras com ele a executar um trabalho que me trouxe à memória os tempos em que também fazia aquela volta no final das vindimas, ou melhor, ajudava a fazer. Tratava-se de lavar os cestos (agora baldes de plástico), o lagar, que não é de vara mas de tarraxa, e demais apetrechos para guardar até ao próximo ano. Na minha juventude tinha por hábito ajudar ao meu tio-avô, não só nas vindimas, mas também a fazer essa volta. Recordo-o como um agricultor com uma sabedoria extraordinária, que já com aos seus setenta e muitos anos ainda tratava a terra por tu e a água por senhora, com só ele sabia. Mas no dia de lavar o lagar, situado no rés-do-chão da casa da sua irmã, nunca demorávamos o dia todo. Como ela era solteira e vivia só, todos os anos vinha pedir para que, quando terminadas as limpezas lhe fosse retelhar a casa e tapar os buracos no telhado, para que no Inverno que se aproximava a água da chuva não passasse para o interior. É hábito, ou era, realizar esta tarefa nas casas com a cobertura em telha de canudo colocada sobre tábuas de madeira, cujas telhas, por não estarem fixas corriam com frequência. Em alguns casos colocavam pedras sobre a telha superior para evitar essa situação, o que acabava por as partir formando buracos que, claro está, também deixavam passar água. Hoje os lagares de vara, como era o caso, já são pouco usados, foram substituídos pelas máquinas, os telhados são construídos doutra forma e com outros materiais, e, como diz o povo: "é lei da vida", quer o meu tio-avô quer a sua irmã também já não estão entre nos. Como ela vivia só, a casa ficou desabitada e nunca mais ninguém se preocupou em a retelhar e tapar os buracos. Nos sucessivos invernos a água foi entrando dando origem à degradação das tábuas de suporte do telhado, estas foram caindo para a loja do lagar assim como as janelas, portas, e até das próprias paredes e agora resta pouco mais do que as fundações. Daquela que era conhecida na localidade pela casinha, não por ser pequena, pelo contrário era uma das maiores do sítio, mas por outra razão qualquer que nunca cheguei a saber, daqui por uns tempos só resta o terreno onde estava implantada. É o típico caso de que, quando não são tomadas as devidas precauções a tempo, as coisas podem correr mal e a casa que custou muito a construir um dia vai abaixo, é só uma questão de tempo.

Joel Freitas, Presidente da ACIN