Como achar-se o jeitinho o suficiente, pode matar tudo isto. Como amador de teatro amei-o tanto ao ponto de me tornar profissional desse amor. Voltar a amar não é suficiente para o exercício da minha profissão. Continuo, de espectáculo para espectáculo, a me profissionalizar, a prestar provas, que é o que há de único nesta profissão. De erro em erro, para cada vez errar menos. A coisa não pode ser esta: os amadores amam e os profissionais que se amadorizem, que aprendam com os amadores (estranho, foi como tal que todos nascemos), para não dizer, os profissionais que se lixem. Pensar assim pode escurecer o cenário. É preciso muito tempo para criar teatro, teatrar, muito tempo para dançar, muito para tocar (a sanfona)? É e não é só com amor que se criam ideias. Élvio, já foste; o amor que tens é apenas para ser dado aos outros seres, não à arte, podes até recebê-lo pela arte que dás, mas não se dá amor à arte, não lhe podes dar o que ela é. Não salves os teus príncipes ou ainda terás de morrer para ires dar de mamar aos teus filhos(Eça). Não procures a tristeza de forma racional. Não faças "punhais de grandes mágoas" (Manuela de Freitas). Em 36 anos, foste alguma vez ao bairro das malvinas? Fui, ontem, uma vez. E que foste lá fazer? Nada, não consegui fazer nada, não havia espaço para mais um fogão nem para o amor. Vou para o vão de escada exercer a minha profissão, como amante. Nos bicos, levanta fervura o amor para um chá de pão. Bebo o medo de dizer não e dou de 'mamor', só isso. É, às vezes ponho a tristeza ao lume.

Élvio Camacho, Actor