A cadeira de Salazar continua a ser um símbolo do fim da ditadura. Foi esse insólito episódio do trambolhão que acelerou a queda dum regime que já estava apodrecido. Nas eleições regionais do passado dia 09, também foi uma cadeira que, simbolicamente, marcou a campanha. No debate televisivo transmitido pela RTP/Madeira, todos os líderes partidários ou cabeças de lista estiveram presentes ou se fizeram representar. A cadeira do PSD ficou vazia… Essa cadeira vazia é uma vergonha para a democracia. Estranhamente, nem esta nem outra frase semelhante foram proferidas por nenhum dos intervenientes no debate, sinal de que já consideram normal não contar com a presença de interlocutores do PSD. Quando o desrespeito da ausência ganha foros de normalidade, algo também vai mal na oposição. Só Rui Barreto (CDS/PP) lamentou que não houvesse um rabo social-democrata a ocupar aquele assento. Não o referiu nestes termos, claro, mas não deixou de fazer todo o sentido que o reparo partisse do único partido que mostrou ser uma alternativa credível. Numa sociedade moderna e civilizada, o debate político faz parte das regras do jogo democrático - evitá-lo ou recusá-lo é ofensivo, principalmente para com os eleitores. Acima de tudo, foi uma atitude de desprezo pelos madeirenses, principalmente pelos que sufragaram tantas maiorias absolutas, e que não mereciam o enxovalho. O mau exemplo que foi dado pelo PSD teve certamente influência nos resultados: acredito que muitos madeirenses não marcaram presença nas urnas em consequência desta atitude reprovável, borrifando-se para as eleições e descartando-se do seu dever cívico. Aliás, na conjuntura actual e perante o quadro negro de austeridade que se avizinha, como é possível que mais de cem mil eleitores tenham optado pela abstenção? Quem está satisfeito com o "buraco" que votasse a favor, dando expressão à vitória; quem está desagradado que votasse contra, contribuindo para mudar alguma coisa; quem está indignado ao ponto de se rever em tácticas terroristas que votasse nos "Garajaus", quem acha graça ao populismo demagógico e à palhaçada que votasse no "Primeiro da Lista". Mas havia mais escolhas, senhoras e senhores: quem até simpatiza com aquele cavalheiro que já foi do PS e gostava de ser do PSD, devia tê-lo feito; quem acha que vale a pena votar naquele indivíduo de discurso soporífero, que fala muito no agro-turismo e na resiliência da economia, pois que pusesse a cruzinha no Partido das Alforrecas e Nabiças; e ainda havia um ex-sacerdote dum ex-partido de referência, que por ter sido mais moderado que habitualmente perdeu votos, e um esforçado senhor dum partido que é paladino das minorias e detesta "offshores", mas que acabou a noite em minoria de votos e "off-side", que é como quem diz - fora de jogo. E francamente, decerto houve alguns madeirenses que se identificaram com aquele que foi o momento mais hilariante da campanha eleitoral, quando o candidato Minimiano foi barrado pela polícia à porta do JM. Fantástica tirada, aquela - "Venho oferecer-me para mediar o conflito." Para a Faixa de Gaza, já!!! Ainda bem que o Dr. Gaspar ainda não se lembrou de lançar o IAR (Imposto sobre Actos Ridículos), porque era um rombo nas finanças do partido…Foi porreiro, pá! Também podiam ter votado num partido que abordou a campanha com seriedade e responsabilidade. Mas a semente está lançada. Nas eleições autárquicas de 2013, quem sabe se o mapa político da RAM não começa a ser pintado em tons de azul… Independentemente da opinião que tenho sobre os candidatos e respectivas propostas e projectos, a verdade é que todos me merecem consideração e uma palavra de apreço, pela coragem em dar a cara. Posso não gostar de muitos deles, mas não lavaram as mãos, não fecharam os olhos, não se abstiveram. E principalmente, nenhum deles se apresentou ao povo madeirense por intermédio duma vergonhosa cadeira vazia…
Raul Ribeiro