Esta coisa de a Madeira andar, numa espécie de jogo infantil invertido, a gritar que o continente “tem um buraco maior que o meu” sempre me pareceu ridículo e mais do que isso sádico.

Como que se o “continente” fosse o país dos outros. Finalmente, os madeirenses que tanto se têm queixado do ataque sem precedentes à Região por se denunciar irregularidades na ocultação da dívida, podem suspirar da alívio. Aposto que esses devem ter ficado satisfeitos ontem quando o primeiro-ministro assumiu que isto é pior do que se imaginava. Talvez até tenham soltado um “bem feito” ou um “afinal não era só aqui”.

Esse regozijo deve ter sido passageiro e de sabor amargo. Porque esse reconhecimento do Governo da República pelo qual tantos madeirenses ansiavam – para provar a teoria de que tudo o que se fez na Madeira à custa do dinheiro que se não tinha foi muito bem feitinho – vai-lhes valer cortes a direito. No subsídio de Natal, de férias, nos feriados, nas horas que terão – teremos todos - de trabalhar mais, sem receber mais por isso. E nem sequer se pode estrebuchar muito, que é isto ou pior, diz-se.

Questiono-me se os sádicos defensores da obra da Madeira continuam felizes e contentes a aplaudir o despesismo. Se ainda acham que “ainda bem se gastou já que se ia pagar na mesma”. Engano. Digam o que disserem a Madeira vai pagar a dobrar, mesmo que a matemática não seja um básico vezes dois, não é semântica. Aqui vai-se pagar à língua de palmo, teremos uma nova insularidade, que não resulta da geografia, mas do fabrico deste Governo. Ainda falta o plano de resgate.

Por isso é ainda mais ridículo pensar que muitos arremessaram para o outro lado do Atlântico, apontaram um dedo a um país que é o nosso, para esconder culpas que não eram alheias. Calculo que estejam de sorriso amarelo agora os que tanto insistiam que “a Madeira não estava pior que o país”. Como se isso fosse algo de bom. Significa apenas que nem sequer os nossos – os de sempre – nos podem ajudar.

E perante isto o que diz o presidente do Governo Regional? Que vai reflectir pelo tempo que lhe apetecer. Pelo menos há uma novidade em mais de 30 anos de governação: Alberto João Jardim começa a dar sinais de que vai pensar antes de falar.

P.S. Este artigo não pretende atirar areia para os olhos sobre o mau rumo que sucessivos Governos da República deram a Portugal e que conduziram à ruptura do país, sobretudo os três partidos da 'troika' que se comprometeram com uma coisa que sabiam que os portugueses não podiam pagar.