O ano de 2010 tem sido farto em eventos extremos cujos efeitos, num meio pequeno, limitado geográfica, social, económica e ambientalmente como o é a Região Autónoma da Madeira, assumem impactos acrescidos e, em situações limite, condicionam de modo inexorável as linhas de orientação, projectos e intenções definidos. A magnitude destes eventos, em contexto de crise global, é tão elevada que não permite certezas quanto à análise da reversibilidade de alguns dos sectores mais atingidos ou da resiliência residual dos que aparentemente resistiram. Nada será como dantes. Por muito curta que seja a memoria dos homens, a vivência colectiva deste ano é uma determinante que vai moldar o modelo de desenvolvimento dos próximos tempos. É também incrível a capacidade de resposta da sociedade madeirense, a qual, por si só, demonstra que esse futuro só pode ser melhor, mais sólido e sustentável. Até porque se vem também percebendo que o mesmo vai ser feito maioritariamente pelos madeirenses, apesar das parangonas da solidariedade que durante dias e semanas se apregoaram a toda a força. O futuro só pode ser uma Madeira viva. E uma Madeira viva depende essencialmente da identificação dos elementos estruturais das funções, bens e serviços que a natureza oferece no suporte ao estabelecimento e desenvolvimento das sociedades humanas. Há pois que identificar, quantificar e avaliar a estrutura ecológica básica e necessária para suportar o que quer que seja que pretendamos como modelo de vida para as actuais e gerações vindouras de modo sustentável. Solo, água, paisagem, segurança, mar, litoral, biodiversidade, são elementos centrais a considerar nessa definição, tal como educação, formação, inovação, tecnologia, competitividade ou, ainda, solidariedade, compreensão, abertura ao mundo, participação e envolvimento, compromisso. Não de uma forma estanque e compartimentada ou metricamente planeada mas, antes em modelo e estrutura flexível, dinâmica e adaptável, capaz de agarrar ou gerar oportunidades. Todas estas dimensões hão-de dar corpo a uma Madeira viva. O momento é critico, as dificuldades são mais que muitas, é certo, mas, também é nestas alturas que o engenho, empenho e determinação se exprimem melhor, mobilizando e garantindo a esperança e motivação necessárias para avançar. É um teste tremendo este de fazer uma Madeira viva, só ao alcance dos que preferem fazer em vez de ver fazer e criticar, no velho, gasto e dispensável exercício que dá falatório mas não resolve. Em tempos de dificuldades económicas a dimensão ambiental do desenvolvimento é sempre vista como despesa ou então atrapalho. No entanto há já suficientes provas em diversos cenários e histórias concretas que demonstram o erro crasso e clássico que é ignorar o valor do ambiente. Estudo recente da União Europeia evidencia, por exemplo, que a perda anual, na Europa, de serviços fornecidos pelos ecossistemas ronda os 50 biliões de dólares. Ao mesmo tempo, o mesmo estudo, prova que o investimento económico na natureza tem um retorno que varia entre 10 e 100:1. Considerando que vivemos numa terra onde felizmente a natureza e as pessoas são os nossos maiores activos, a Madeira pode mesmo ser uma Madeira viva. Basta que estes valores possam também ser considerados aquando das decisões sobre investimentos, facto que, segundo o mesmo estudo, à data, atinge valores negligenciáveis no contexto europeu.
António Domingos Abreu