Carlota Nóbrega Sou uma moradora do sítio o Ribeiro Fernando- Camacha, venho por este meio manifestar a minha tristeza do que está a acontecer na nossa Ilha. Também quero fazer um pequeno apelo ás nossas autoridades, à Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Brigada de Intervenção Rápida (BIR), para que a maneira com que evacuam as pessoas das suas casas, seja mais digna e mais humana, pois não é preciso tanto aparato Policial. Quando falo em aparato Policial não estou a exagerar, porque havia: 2 carrinhas da BIR, com mais ou menos 8 elementos em cada, 4 carros da PSP, 2 carros com megafone a avisarem as pessoas para evacuarem as casas, 1 carro da Protecção Civil, 3 Ambulâncias e 1 carro da EMIR, enfim. Acho que foi muito alarmante e brutal a maneira com que agiram com as pessoas, principalmente com idosos e crianças, já bastava o drama que estávamos a viver, a ver o fogo a se aproximar das nossas casas. Estávamos a deitar água em volta das casas e fomos retirados à força, principalmente pela BIR, que nem nos deixou ir buscar os nossos documentos, nem quando dizíamos: " Temos de ir a casa!" ou então: " Não queremos sair!" a voz da autoridade era pura e simplesmente: " Não sai a bem, sai a mal!". Chegaram mesmo a arrancar bruscamente as pessoas das suas casas, puxando-as pelos braços. Dirigi-me a um agente da PSP e perguntei: " Ás pessoas idosas como fazemos se não podemos voltar para casa?" A resposta foi: " Leve-os a dar um passeio até ao Funchal, se não puder voltar para casa não podem ir para a Casa do Povo. O último recurso é o RG3." Nós, moradores do Sítio do Ribeiro Fernando e Sítio dos Tanques- Palheiro Ferreiro, fomos mandados sair e levar os nossos carros para o largo ao pé do campo de futebol do 1º de Maio, onde ficamos cercados de agentes da PSP e da BIR como se fossemos um bando de delinquentes. Nós ali a ver o fogo chegar perto das nossas casas e a não podermos fazer nada, o desespero aumentava. Algumas pessoas conseguiram "escapar" aos agentes, metendo-se entre o matagal para poderem chegar às suas casas para tentarem salva-las. Os restantes permaneceram ali, até as 6 horas da manhã do dia 14. Agora faço uma pergunta: Será que com esta atitude foram correctos com as pessoas? Era uma loucura: crianças, jovens e idosos em pânico; com frio porque, como já referi, não nos deixaram levar nada. Valeu a boa vontade e ajuda das pessoas de família e de alguns moradores que ali vivem que nos vieram trazer água e alguns cobertores para nos aquecermos e podermos permanecer ali durante toda a noite até termos ordem de voltar a casa, para ver os danos que não nos deixaram tentar controlar. Por fim, queremos agradecer a todos os familiares e amigos que nos foram dar apoio, pois foi muito importante sentir o apoio dessas pessoas.