Se revelamos incapacidade para nos governarmos, melhor que outros o façam por nós. A crise financeira gerada em torno da dívida pública da Grécia veio pôr a nú, duma forma dura e crua, as insuficiências da União Económica e Monetária (UEM). Mecanismos de decisão muito lentos, ausência de coordenação das políticas económicas dos Estados-Membros, falta de mecanismos sancionatórios eficazes para os Estados incumpridores, ausência de instrumentos de solidariedade que interviessem em situações de choques assimétricos, incapacidade das regras estabelecidas para levarem os Estados a adoptar políticas anti-cíclicas, nomeadamente durante os períodos de crescimento económico, etc, etc... Males que se conheciam, que haviam sido denunciados, mas não se ligou. Agora que a casa foi quase arrombada, ensaiam-se trancas para a porta. Nada será como dantes. Cria-se uma espécie de Fundo Monetário Europeu com capacidade para mobilizar recursos na ordem dos 750.000 milhões de Euros. O Banco Central Europeu, contra o que afirmara dias antes, passa a comprar dívida pública dos Estados em aflição. A Comissão Europeia propõe e os Estados-Membros aceitam analisar uma medida de vigilância prévia sobre os orçamentos nacionais, em particular dos países em dificuldades. Sugerem-se sanções mais expeditas e eficazes (perda de verbas do Fundo de Coesão), algumas mesmo de cariz político (suspensão dos direitos de voto dos países incumpridores).Tudo para acalmar os mercados, desarmar a expeculação desenfreada a que a inacção dera lugar, evitar o efeito de contágio que poderia levar à bancarrota a Grécia, Portugal e mesmo a Espanha, o que teria efeitos catastróficos no sistema bancário europeu (titular de obrigações de dívida pública destes países no valor de muitas centenas de milhões de euros) e à implosão da moeda única europeia.Mas o socorro europeu teve um reverso! Implicou uma perda de soberania para os países visados. Exigiu-se-lhes rápidas e draconianas medidas adicionais de austeridade, dada a insuficiência dos respectivos PEC's apresentados a Bruxelas. A incúria e a incompetência dos sucessivos governos socialistas levou-nos a isto.Vamos agora ter de suportar, sem a certeza se o sacrifício será suficiente, nem até quando será necessário, aumentos de impostos, mesmo sobre os mais desfavorecidos, enquanto a despesa do monstruoso e ineficaz Estado que temos, permanece quase intocada e a consumir já mais de metade da riqueza que produzimos.Significativamente no caso português a perda de soberania foi mais longe. Sócrates teve de aceitar também o adiamento de alguns grandes projectos de obras públicas que teimosamente contra tudo e todos queria levar por diante.Negativa a perda de soberania? Bom... Se já desde que os romanos andaram pela Ibéria revelamos incapacidade para nos governarmos, melhor que outros o façam por nós. Melhor que a Europa nos governe! Pena que não o possa fazer noutras áreas como a Educação ou a Justiça. Preferia, no entanto, que esta Europa reforçada que sairá da crise e que crescentemente nos irá governar, fosse uma Europa de tipo comunitário ou federal, sinónimo de Igualdade e Solidariedade e não uma Europa Intergovernamental ou dos Estados, onde os grandes, nomeadamente a Alemanha e a França acabam por impôr a sua vontade como parece ser cada vez mais a tendência actual.Sérgio Marques
Se revelamos incapacidade para nos governarmos, melhor que outros o façam por nós.
A crise financeira gerada em torno da dívida pública da Grécia veio pôr a nú, duma forma dura e crua, as insuficiências da União Económica e Monetária (UEM). Mecanismos de decisão muito lentos, ausência de coordenação das políticas económicas dos Estados-Membros, falta de mecanismos sancionatórios eficazes para os Estados incumpridores, ausência de instrumentos de solidariedade que interviessem em situações de choques assimétricos, incapacidade das regras estabelecidas para levarem os Estados a adoptar políticas anti-cíclicas, nomeadamente durante os períodos de crescimento económico, etc, etc... Males que se conheciam, que haviam sido denunciados, mas não se ligou. Agora que a casa foi quase arrombada, ensaiam-se trancas para a porta. Nada será como dantes. Cria-se uma espécie de Fundo Monetário Europeu com capacidade para mobilizar recursos na ordem dos 750.000 milhões de Euros. O Banco Central Europeu, contra o que afirmara dias antes, passa a comprar dívida pública dos Estados em aflição. A Comissão Europeia propõe e os Estados-Membros aceitam analisar uma medida de vigilância prévia sobre os orçamentos nacionais, em particular dos países em dificuldades. Sugerem-se sanções mais expeditas e eficazes (perda de verbas do Fundo de Coesão), algumas mesmo de cariz político (suspensão dos direitos de voto dos países incumpridores).Tudo para acalmar os mercados, desarmar a expeculação desenfreada a que a inacção dera lugar, evitar o efeito de contágio que poderia levar à bancarrota a Grécia, Portugal e mesmo a Espanha, o que teria efeitos catastróficos no sistema bancário europeu (titular de obrigações de dívida pública destes países no valor de muitas centenas de milhões de euros) e à implosão da moeda única europeia.Mas o socorro europeu teve um reverso! Implicou uma perda de soberania para os países visados. Exigiu-se-lhes rápidas e draconianas medidas adicionais de austeridade, dada a insuficiência dos respectivos PEC's apresentados a Bruxelas. A incúria e a incompetência dos sucessivos governos socialistas levou-nos a isto.Vamos agora ter de suportar, sem a certeza se o sacrifício será suficiente, nem até quando será necessário, aumentos de impostos, mesmo sobre os mais desfavorecidos, enquanto a despesa do monstruoso e ineficaz Estado que temos, permanece quase intocada e a consumir já mais de metade da riqueza que produzimos.Significativamente no caso português a perda de soberania foi mais longe. Sócrates teve de aceitar também o adiamento de alguns grandes projectos de obras públicas que teimosamente contra tudo e todos queria levar por diante.Negativa a perda de soberania? Bom... Se já desde que os romanos andaram pela Ibéria revelamos incapacidade para nos governarmos, melhor que outros o façam por nós. Melhor que a Europa nos governe! Pena que não o possa fazer noutras áreas como a Educação ou a Justiça. Preferia, no entanto, que esta Europa reforçada que sairá da crise e que crescentemente nos irá governar, fosse uma Europa de tipo comunitário ou federal, sinónimo de Igualdade e Solidariedade e não uma Europa Intergovernamental ou dos Estados, onde os grandes, nomeadamente a Alemanha e a França acabam por impôr a sua vontade como parece ser cada vez mais a tendência actual.Sérgio Marques