A gravidade da conjuntura vai também atingir os beneficiários das prestações sociais. Estava escrito nos astros, adivinhava-se nos ventos, que Portugal iria ser atingido pela crise financeira, parida pela ganância especulativa dos mercados, em 2008, como o foi a Irlanda, que de imediato tomou medidas austeras. O exemplo da Grécia, e a sua contestação social, face à dureza das restrições impostas, entrava-nos em casa diariamente. E de Espanha, o nosso vizinho rico, chegavam os ecos da crise em desemprego galopante e medidas drásticas, com enormes impactos sociais. A dúvida em relação ao nosso país era tão só, a espera da apresentação da versão lusa das medidas da crise, aos portugueses. Apesar dos discursos contraditórios do governo.Elas aí estão, com cortes na despesa pública e aumento de impostos, segundo se diz em voz baixa, por pressões do eixo Berlim/Bruxelas (a da vaquinha generosa, dos fabulosos euros, dos fundos, dos programas de desenvolvimento, das verbas e subsídios a fundo perdido e não só, lembram-se?). Como nos idos de 80, em 2005, antes em 2003, agora em 2010, - e quem sabe o que nos trará o futuro - a culpa é da pressão dos mercados (?), dos compromissos com a zona Euro e dos limites impostos aos níveis de endividamento, ao que parece, ultrapassados pelos nossos governantes. Triste sina lusitana! Depois da opulência das especiarias da Índia, das extravagâncias do ouro e esmeraldas do Brasil e do esbanjamento dos dinheiros europeus, eis-nos de novo na penúria, humilhados na nossa soberania, à mercê dos agiotas das agências internacionais de notação, castigados com os puxões de orelhas dos parentes ricos da Europa. É a vida! Quem deve não pode ter orgulho, diz-se. Lá vamos de PEC em PEC, sem que o fantasma da austeridade financeira deixe de assombrar o nosso latino temperamento perdulário, que nos faz, diz-se, viver acima das nossas posses. A gravidade da conjuntura vai também atingir com cortes, os beneficiários das prestações sociais. Pretende-se fazer crer que os pobres, os desempregados, os economicamente fragilizados por desemprego e precariedade laboral, pelas desigualdades na distribuição da riqueza, cada vez mais aprofundadas pelos desmandos da incompetência política dos governos e em resultado da ganância especulativa dos mercados financeiros, são um peso para a sociedade e para as finanças públicas e por isso terão os apoios do Estado reduzidos. Não é de descartar a hipótese de uma crise social, de conflitualidade imprevisível. Assiste-se ao crescente empobrecimento de largas faixas da classe média, engrossando o já endémico número de pobres e excluídos do nosso país. E a confirmar este facto, estão personalidades insuspeitas como Isabel Jonet e o seu capital de experiência à frente do Banco Alimentar contra a Fome, na luta pela sobrevivência de milhares de cidadãos. Em época de recessão económica, escassez de emprego e uma dolorosa insensibilidade social por parte de certos quadrantes políticos e sectores empresariais, é preciso garantir alimentação aos que não têm capacidade de a conseguir pelos seus próprios meios. Esperar-se-ia, no entanto, que os sectores economicamente mais sólidos da nossa sociedade colaborassem proporcionalmente, no esforço de reequilíbrio financeiro do país. Afinal, é incompreensível que o sector bancário, que, para sair da crise, beneficiou de generosas injecções de ajuda do Estado com dinheiro dos contribuintes, agora, quando apresenta escandalosos lucros financeiros, não seja chamado a contribuir, restituindo aquilo de que tão liberalmente beneficiou. Esperar-se-ia também, que do lado das grandes fortunas, algumas ilegalmente depositadas nos off-shores, e cuja tributação seria suficiente para acertar as contas públicas, houvesse uma atitude de cidadania responsável e patriota. Mas esperar-se-ia também, que o governo do país soubesse envolver todas as forças vivas da sociedade e não apenas o líder do maior partido da oposição, na solução do problema, dada a gravidade da matéria em jogo. Era preciso convocar todos. Os partidos. Os sindicatos. Os empresários. As associações representativas das mais diversas forças da sociedade, desde as elites intelectuais ao mais humilde cidadão. Seria um momento mágico de reinventar o diálogo democrático, interpelar o papel das instituições do Estado, legitimar a decisão política. Ganharia o país em coesão, o Governo em credibilidade (que anda pelas ruas da amargura), o Estado, solidez e confiança, e a Democracia sairia reforçada em qualidade. Mas não se quis. Ou não se soube. É pena.Júlia Caré

A gravidade da conjuntura vai também atingir os beneficiários das prestações sociais.

Estava escrito nos astros, adivinhava-se nos ventos, que Portugal iria ser atingido pela crise financeira, parida pela ganância especulativa dos mercados, em 2008, como o foi a Irlanda, que de imediato tomou medidas austeras. O exemplo da Grécia, e a sua contestação social, face à dureza das restrições impostas, entrava-nos em casa diariamente. E de Espanha, o nosso vizinho rico, chegavam os ecos da crise em desemprego galopante e medidas drásticas, com enormes impactos sociais. A dúvida em relação ao nosso país era tão só, a espera da apresentação da versão lusa das medidas da crise, aos portugueses. Apesar dos discursos contraditórios do governo.Elas aí estão, com cortes na despesa pública e aumento de impostos, segundo se diz em voz baixa, por pressões do eixo Berlim/Bruxelas (a da vaquinha generosa, dos fabulosos euros, dos fundos, dos programas de desenvolvimento, das verbas e subsídios a fundo perdido e não só, lembram-se?). Como nos idos de 80, em 2005, antes em 2003, agora em 2010, - e quem sabe o que nos trará o futuro - a culpa é da pressão dos mercados (?), dos compromissos com a zona Euro e dos limites impostos aos níveis de endividamento, ao que parece, ultrapassados pelos nossos governantes. Triste sina lusitana! Depois da opulência das especiarias da Índia, das extravagâncias do ouro e esmeraldas do Brasil e do esbanjamento dos dinheiros europeus, eis-nos de novo na penúria, humilhados na nossa soberania, à mercê dos agiotas das agências internacionais de notação, castigados com os puxões de orelhas dos parentes ricos da Europa. É a vida! Quem deve não pode ter orgulho, diz-se. Lá vamos de PEC em PEC, sem que o fantasma da austeridade financeira deixe de assombrar o nosso latino temperamento perdulário, que nos faz, diz-se, viver acima das nossas posses. A gravidade da conjuntura vai também atingir com cortes, os beneficiários das prestações sociais. Pretende-se fazer crer que os pobres, os desempregados, os economicamente fragilizados por desemprego e precariedade laboral, pelas desigualdades na distribuição da riqueza, cada vez mais aprofundadas pelos desmandos da incompetência política dos governos e em resultado da ganância especulativa dos mercados financeiros, são um peso para a sociedade e para as finanças públicas e por isso terão os apoios do Estado reduzidos. Não é de descartar a hipótese de uma crise social, de conflitualidade imprevisível. Assiste-se ao crescente empobrecimento de largas faixas da classe média, engrossando o já endémico número de pobres e excluídos do nosso país. E a confirmar este facto, estão personalidades insuspeitas como Isabel Jonet e o seu capital de experiência à frente do Banco Alimentar contra a Fome, na luta pela sobrevivência de milhares de cidadãos. Em época de recessão económica, escassez de emprego e uma dolorosa insensibilidade social por parte de certos quadrantes políticos e sectores empresariais, é preciso garantir alimentação aos que não têm capacidade de a conseguir pelos seus próprios meios. Esperar-se-ia, no entanto, que os sectores economicamente mais sólidos da nossa sociedade colaborassem proporcionalmente, no esforço de reequilíbrio financeiro do país. Afinal, é incompreensível que o sector bancário, que, para sair da crise, beneficiou de generosas injecções de ajuda do Estado com dinheiro dos contribuintes, agora, quando apresenta escandalosos lucros financeiros, não seja chamado a contribuir, restituindo aquilo de que tão liberalmente beneficiou. Esperar-se-ia também, que do lado das grandes fortunas, algumas ilegalmente depositadas nos off-shores, e cuja tributação seria suficiente para acertar as contas públicas, houvesse uma atitude de cidadania responsável e patriota. Mas esperar-se-ia também, que o governo do país soubesse envolver todas as forças vivas da sociedade e não apenas o líder do maior partido da oposição, na solução do problema, dada a gravidade da matéria em jogo. Era preciso convocar todos. Os partidos. Os sindicatos. Os empresários. As associações representativas das mais diversas forças da sociedade, desde as elites intelectuais ao mais humilde cidadão. Seria um momento mágico de reinventar o diálogo democrático, interpelar o papel das instituições do Estado, legitimar a decisão política. Ganharia o país em coesão, o Governo em credibilidade (que anda pelas ruas da amargura), o Estado, solidez e confiança, e a Democracia sairia reforçada em qualidade. Mas não se quis. Ou não se soube. É pena.Júlia Caré