António Ferreira Numa das muitas biografias de Churchill foi escrito que para vencer um louco como Hitler, foi preciso outro chamado Churchill. Apesar da imagem francamente positiva que temos do estadista, um lutador voraz em prol da liberdade, um crítico acérrimo de totalitarismos, Churchill enfrentou duros reveses ao longo da sua longa carreira, perdeu batalhas de forma desastrosa, foi acusado de belicista, misógino, perdeu eleições de maneira clamorosa. As imagens que temos do grande homem confundem-se com os seus discursos brilhantes que lhe valeram um Nobel da Literatura. «Nunca tão poucos fizeram por tão muitos» e «sangue, suor e lágrimas», são frases que fazem inveja a qualquer político. Ainda hoje, Churchill é reverenciado um pouco por toda a parte. Sobre Nixon já não podemos dizer o mesmo. O presidente americano é um caso enigmático de contradições. Todos sabemos sobre Watergate e o que Nixon suou ao debater-se com Kennedy, mas poucos sabem que Nixon foi um iconoclasta político, numa época sensível da guerra fria, defendeu posições favoráveis de justiça social, preconizou ideias, valores e princípios que levaram ao colapso da URSS e transformaram a América numa superpotência isolada no topo do mundo. Odiado pela esquerda, e confrontado com uma direita renitente, Nixon venceu graças uma maioria silenciosa que o admirava e respeitava, apesar das suas contradições.Estes dois políticos representam uma era política que já não existe. Perante as televisões prevalece a estética em detrimento do conteúdo. A sociedade não aprecia a contradição, esquece-se frequentemente que os políticos são, e devem ser, frágeis, falíveis e imperfeitos (1). Não há reconhecimento pelo mérito, não há lugar a primazia. Neste momento difícil precisamos de políticos a sério, mas o lugar destes é obliterado com uma demagogia avassaladora. Queremos todos estar no topo, na égide da sociedade. Já aqui mencionei a expressão «delírios igualitários», poderia acrescentar o paradigma relativista. Na sociedade contemporânea não há lugar a reverência, ao respeito com ou sem concórdia, temos todos razão, somos todos cultos, sofisticados e inteligentes. Não se fala de verdadeira política ou verdadeira cultura, mas sim, de «cultura geral» e política de contingência. A inércia do intelecto e do carácter prevalece, e lentamente, vamos dando lugar a absoluta vacuidade. Na História humana tivemos períodos semelhantes e o resultado, infelizmente, nunca foi fecundo. Por isto, estou convicto, precisaremos, sempre, de heróis improváveis.(1) Agradeço os adjectivos a João Pereira Coutinho.