O tema da imigração tem dominado a campanha eleitoral na Suécia,
que vai às urnas no domingo, tendo portugueses residentes em três grandes
cidades mostrado preocupação perante as divisões crescentes no país.
"Nos últimos meses houve muitas mudanças na educação.
Gostaria que elas fossem os temas mais importantes [na campanha], mas na
verdade é a imigração", disse Sofia Silva, de 54 anos, funcionária da
direção-geral da Educação sueca.
Sofia imigrou há mais de 20 anos e tem passaporte sueco.
Juntamente com a filha, Victoria, contou, em videochamada a partir de
Estocolmo, como a sociedade sueca se tem vindo a polarizar em torno do tema.
"É só disso que se fala", contou Victoria, de 18 anos.
Filha de mãe portuguesa e pai sueco, estas são as primeiras eleições em que vai
votar. "Ou és a favor da imigração ou és contra, é isso que importa",
disse.
A mãe considerou como a situação se alterou, em pouco mais de uma
década, com o crescimento dos Democratas Suecos, o partido nacionalista de
direita radical que apoia o atual Governo.
"Na altura, pedi a cidadania. À luz das mudanças que foram
implementadas, sinto que tomei a decisão certa. Se não o tivesse feito, agora
teria muito medo, mesmo sendo cidadã europeia", disse Sofia.
Com um Governo de coligação entre Moderados, Liberais e
Democratas-Cristãos, com o apoio da extrema-direita, a Suécia encontra-se numa
encruzilhada: os Sociais-Democratas, de centro-esquerda, surgem no topo das
sondagens e o conjunto da esquerda tem pouco mais de 50% das intenções de voto,
mas a margem face ao bloco da direita é muito curta.
Num país habituado a coligações, a proximidade dos dois grandes
blocos e a possibilidade de acordos ao centro torna difícil desenhar o cenário
que sairá das legislativas. E a extrema-direita nunca esteve tão próxima de
fazer parte de um governo sueco.
"Começa-se a falar em 'suecos étnicos'. Antes, se fosses
imigrante mas te adaptasses à Suécia, eras sueco", disse Victoria.
"Incomoda-me muito que as coisas se tenham tornado tão polarizadas".
Num café em Gotemburgo, Ana Filipa, de 33 anos, disse estar
ansiosa com esta campanha.
"No trabalho, quando se fala de eleições, é stressante,
nota-se que as pessoas estão a ir cada vez mais para a direita", contou a
portuguesa radicada há uma década na Suécia e a trabalhar no sistema prisional.
"Imigração e crime, tem sido muito em torno destes dois temas e da criação
de uma ligação entre eles que eu não acredito que exista", afirmou.
Caso os partidos de governo ganhem, a extrema-direita poderá
integrar o Executivo, de acordo com o plano comunicado pelo primeiro-ministro
sueco, Ulf Kristersson, em abril.
"Acho que é uma ilusão dizer que [esse cenário] não nos
afeta, porque mesmo que não sejamos expulsos, afeta a maneira como nos veem. É
uma preocupação", salientou.
Ana Filipa ainda não pode votar nas legislativas por estar à
espera do resultado da candidatura à cidadania sueca, feita há dois anos. As regras
ditam que a agência de imigração responda em seis meses aos pedidos de
cidadania, mas em média esse processo leva muito mais tempo.
Também Sara Girão está à espera há já quatro anos. A engenheira de
36 anos, que trabalha na Volvo, em Gotemburgo, está no país desde 2015. Também
ela considerou estar a ser feita uma ligação entre imigração e criminalidade.
Durante décadas, a Suécia foi vista como um dos países mais
abertos a refugiados e requerentes de asilo, mas nos últimos anos, tem imposto
regras cada vez mais apertadas à imigração e à obtenção de cidadania, tendo já
sido criticada pela organização não-governamental Human Rights Watch pela
deportação de jovens mulheres para países onde podem sofrer discriminação de
género.
Este ano, o governo implementou novas regras para a obtenção de
cidadania, num processo polémico que inclui a aplicação retroativa das novas
regras aos pedidos ainda em apreciação. O governo sueco aumentou também o valor
do salário necessário para a permanência de muitos imigrantes na Suécia.
"A minha filha experienciou isto, uma das colegas dela teve
que sair do país, porque os pais não tinham nível económico para poderem
ficar", contou Sara.
Hernâni Vieira, de 41 anos, técnico de radiologia, também disse
notar uma sociedade mais dividida, mas apesar de ainda não ter pedido o
passaporte sueco, afirmou estar pouco preocupado com a sua situação.
"Já me sinto relativamente seguro aqui", disse, a partir
de um gabinete no hospital de Uppsala. "Trabalho num hospital
universitário, morei a maior parte dos anos aqui numa cidade universitária,
pelo que a multiculturalidade aqui é o pão do dia". No entanto, avisou que
o caminho traçado, neste momento, é o de dificultar o processo de
regularização, o que será um desafio para os novos imigrantes.
Para ele, são os serviços públicos, nomeadamente a saúde (que, na
Suécia, se baseia num modelo descentralizado), que são os temas centrais destas
eleições triplas -- legislativas, regionais e municipais. Como cidadãos
europeus, os cerca de 6 mil portugueses a viver na Suécia podem votar nas duas
últimas, o que Hernâni assegura já ter feito.
