
1. O Tio Sam e os Rapazes dos Recados
Este Mundial de futebol é um monumento sem limites à desfaçatez. O torneio que nos prometeram ser “abrangente e aglutinador” — a sublime desculpa para enfiar 48 seleções num funil — revelou-se o maior embuste geopolítico do século. O que deveria ser uma festa universal transformou-se, à descarada, numa extensão de políticas discricionárias e caprichos de bastidores dos Estados Unidos, aplicada a coanfitriões amestrados e perante a complacência de uma FIFA vergonhosamente subserviente.
É preciso ter estômago para assistir à liberdade de circulação ser transformada numa piada de mau gosto: árbitros, adeptos, jornalistas e atletas tratados como suspeitos habituais, brindados com vistos recusados, entradas bloqueadas e revistas humilhantes em aeroportos. O caso do Irão — obrigado a dormir no México para poder jogar em solo norte-americano — é de um surrealismo digno de uma distopia de vão de escada. Mas o verdadeiro pináculo do ridículo foi a interferência direta de Donald Trump para despenalizar um jogador da seleção norte-americana após uma expulsão direta. Pelos vistos, as regras do jogo agora também se decidem na Sala Oval.