Cheguei aos 50 e ando inquieto. Não porque a vida corra mal — pelo contrário — mas porque começo a sentir, com uma clareza que antes não tinha, a falta daquela ilusão leve dos 20 anos. Nesse tempo, a saúde era garantida, os pais eram eternos e o mundo parecia obedecer à nossa vontade. Achávamos que éramos donos do destino, e que os mais velhos eram apenas chatos. Hoje não me sinto um “chato”, mas sinto-me inquieto. Dou valor a coisas que antes me passavam ao lado: um “como estás?”, uma mensagem inesperada, um telefonema simples. Pequenos gestos que, hoje, pesam mais do que horas de conversa vazia, muitas vezes passadas em silêncio, cada um fechado no seu telemóvel.

E talvez seja isso que mais me perturba: estamos cada vez mais juntos… mas menos presentes. O telemóvel tornou-se o centro de tudo, mas pergunto-me se ainda sabemos comunicar. Porque comunicar não é só escrever ou reagir — é olhar, interromper, ouvir, rir fora de tempo. E isso está a desaparecer. Às vezes questiono-me, com alguma inquietação, se as próximas gerações saberão o que é verdadeira intimidade fora de um ecrã. Ao mesmo tempo, olho mais para os meus, para os que estão perto e para os que estão longe, e percebo que um simples “olá” da família tem hoje um valor imenso. Talvez porque finalmente entendi aquilo que sempre soube, mas nunca quis aceitar: não somos eternos.