O processo Marquês tornou-se o espelho maior da incapacidade estrutural do sistema judicial português. Mais do que um caso penal, é um caso político, mediático e cultural, onde a Justiça se dilui entre expectativas desmedidas, investigações intermináveis e um país inteiro que já não sabe o que significa verdadeiramente fazer Justiça. Desde cedo ficou claro que um mega - processo com centenas de milhares de páginas, dezenas de arguidos, milhares de factos e uma década de investigação nunca poderia produzir uma decisão rápida, clara e compreensível. Ivo Rosa percebeu-o e tentou separar o essencial do supérfluo, numa decisão juridicamente ousada que, goste-se ou não, denunciava o esgotamento do modelo; mas, por pensar diferente, foi crucificado pela opinião pública, transformado num alvo político e mediático, e apresentado como símbolo de tudo o que “correu mal”, quando, ironicamente, foi o único a enunciar o óbvio: este processo nasceu condenado.