A invasão da Ucrânia por parte da Rússia foi um dos
temas abordados pelo painel de comentadores do ‘Primeira Mão’, programa semanal
de análise política que é transmitido às quintas-feiras, com reposição aos domingos, pela TSF-Madeira.
A "atitude criminosa encabeçada por Putin"
A advogada Sara Madalena deu
destaque às preocupações humanas que a guerra gera até porque julga que “todas as considerações históricas e estratégicas da Rússia, que foram, por nós, inclusivamente afloradas num programa anterior, ficam derrogadas pela atitude criminosa encabeçada por Putin, na Ucrânia.”.
Deixa para os meios de comunicação social os considerandos e comentários geopolíticos,
históricos, sociais e culturais e faz questão de trazer a lume "a
vertente humana da guerra e as suas consequências terríveis para as populações
daqueles cenários.”
Espera que o conflito "tenha um rápido término sem o falecimento de mais civis e sobretudo crianças.”, mas tal como se solidarizou com o tormento de Rayan e do menino Afegão, também chora "o falecimento duma criança de sete anos no dia da invasão da Ucrânia pela Rússia"".
"Qualquer guerra é condenável"
Já o politólogo Francisco Gomes
realçou a necessidade de analisar o conflito instalado de uma forma abrangente,
tentando identificar os vários aspectos que contribuíram para a presente
situação:
“Qualquer guerra é condenável, pois gera
custos humanos que são pagos pelos mais frágeis e que deixam incontornáveis
marcas negativas na vida de milhões de inocentes. Dito isto, e sem negar as
responsabilidades especiais que recaem sobre a Rússia pelo conflito instalado,
a objectividade e o bom senso exigem que também consideremos a política que tem
sido seguida pelos Estados Unidos e pela NATO relativamente à Rússia desde o
desmembramento da União Soviética, em especial a instalação de meios e de
contingentes militares ocidentais nas fronteiras da Federação Russa.”
Julga que um conhecimento - por muito básico que fosse
- da política internacional depois da Guerra Fria desaconselharia muitas das
decisões que têm sido tomadas pelos estados ocidentais no leste europeu e apontaria
para o risco de isolar geograficamente a Rússia através da expansão da NATO
para zonas que não foram sancionadas pelos entendimentos estabelecidos no
início da década de noventa entre os governos americanos e soviéticos. "Esses,
insensatamente, têm sido ignorado há décadas e, agora que a Rússia optou por
movimentações bélicas condenáveis, o Ocidente simplesmente não tem quaisquer
opções militares exequíveis que possam incomodar o avanço sobre a Ucrânia. Podem
falar, podem protestar, podem estimular ondas públicas de protesto aos actos
russo, mas a verdade é que o Ocidente não tem capacidade para contrariar
militarmente a opção russa, algo que é ainda agravado na Europa pela sua enorme
dependência energética da Rússia, especificamente no que toca ao fornecimento
de gás natural.”, sublinha,
“Devastados pela gestão incompetente que
fizeram no Afeganistão e sem uma política estratégica de defesa comum,
americanos e europeus estão limitados a respostas económicas, as quais poderão
não ser suficientes para conter a afirmação de nacionalismo russo que está a
ser expressa em território ucraniano. Esperemos, apenas, que a preocupação
humanista que todos devemos ter pelo povo ucraniano e pelo futuro do planeta
impere e que um entendimento diplomático seja atingido, algo que é muito mais
importante do que retórica barata e declarações de boas intenções.”
A posição de Erdogan
A investigadora Liliana
Rodrigues realçou a posição que a Turquia assumiu, notando que o presidente
Erdogan já avisou Vladimir Putin que nunca reconhecerá qualquer
medida que afecte a soberania e a integridade territorial da Ucrânia.
“O presidente da
Turquia apelou a Putin para que seja encontrada uma solução com base nos
Acordos de Minsk e reafirmou o seu empenho na continuação dos contactos e
conversações diplomáticas, assegurando que a Turquia está pronta a fazer a sua
parte para reduzir a tensão. Aliás, Erdogan já tinha considerado inaceitável o
reconhecimento por Moscovo da independência de Donetsk e Lugansk, numa primeira
reação na terça-feira.”, sublinha.
Liliana Rodrigues realçou, ainda, que a Turquia,
membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), é próxima de
Kiev, à qual vendeu 'drones' (aviões não tripulados) militares, mas também está
muito dependente de Moscovo para o seu fornecimento de energia e cereais, entre
outros bens, e adquiriu um sistema russo de defesa antimísseis S-400.” Por essa
razão, é compreensível que Erdogan tenha oferecido a sua mediação para evitar
um conflito entre a Ucrânia e a Rússia, países que, tal como a Turquia, se
situam nas margens do Mar Negro.