A Câmara Municipal de Machico recorreu ao Facebook para dar
opinião sobre a notícia, de hoje, do DIÁRIO, que dá conta de que o concelho em
causa é de elevado risco de transmissão do novo coronavírus – SARS-CoV-2, que
provoca a doença Covid-19. Logo pela manhã de hoje, o DIÁRIO tentou ouvir o
presidente da referida autarquia, mas Ricardo Franco nem atendeu o telefone, ao
contrário do que fez outra pessoa bem conhecida do concelho, Ricardo Sousa, que
já foi presidente da Junta de Freguesia da sede de concelho.
A Câmara Municipal preferiu emitir um esclarecimento, no seu
Facebook oficial, em que nega o que os números oficiais revelam e demonstra o
entendimento de que um facto pode deixar de ser noticiado por ser Natal ou
pouco conveniente a algumas pessoas e instituições.
O ponto essencial da notícia é que Machico preenche os requisitos
definidos oficialmente para ser encardo como concelho de elevado risco e que,
por isso, o é.
A autarquia presidida por Ricardo Franco entende que revelar
isso é ser sensacionalista. “A Câmara Municipal de Machico vem, por este meio, lamentar e repudiar a
notícia publicada no Diário de Notícias de hoje, dia 18 de Dezembro, que indica
Machico como um concelho de risco elevado para a Covid-19, considerando-a
sensacionalista, completamente descontextualizada e extemporânea, uma vez que o
número de casos no Município apresenta uma evolução descendente desde há uma
semana, centrando-se, atualmente, nos 54 positivos.”
Por partes: o contexto da notícia é evidente e óbvio; a alegação de extemporaneidade
indicia que a CM de Machico entende que já foi de alto risco e já não é. Ora,
como veremos abaixo, foi e é. A alegação de que o número de casos activos é de
54 mostra a ignorância do conceito em causa. Não entra o número de casos
activos, mas os diagnosticados nos 14 dias anteriores.
A CM de Machico continua o ‘esclarecimento’: “Perante o aumento de
infecções, em tempo útil, o Município accionou o seu Plano de Contingência,
implementando um conjunto de medidas restritivas, no sentido de evitar e conter
a propagação do vírus, conforme constam do edital nº140/2020 de 9 de Outubro,
medidas essas que, claramente, se revelaram eficazes.” Esta parte do esclarecimento
não tem relação directa com a notícia.
“Continuamos a apelar
para o cumprimento de todas as recomendações das autoridades de Saúde, e
consideramos que não é com este tipo de notícias sensacionalistas, confusas e
desprovidas de rigor que se contribui para o combate efectivo e sério à COVID-
19.” Ora, a primeira parte deste parágrafo mais não é do que o cumprimento de
uma obrigação de uma entidade pública responsável, que é apelar a que sejam
seguidas as regras das autoridades de saúde. Já a segunda parte apenas
demonstra uma visão desfocada dos seus autores. Além disso, este é o mesmo tipo
de notícias daquelas que revelam o que a autarquia considera ser os seus
feitos.
“Não se compreende
como é que, a uma semana do Natal, este órgão de comunicação social releva uma
não notícia, tendo inclusive destaque de 1ª página, o que denota uma clara
intenção de denegrir a imagem município, o comércio e a economia local.” Neste
aspecto, a autarquia revela falta de compreensão, o que não é um problema do
DIÁRIO, e faz um juízo de intenções, o que só pode ser tolerável se enquadrado
numa flexibilidade resultante da compreensão dos momentos difíceis vividos.
“A Câmara Municipal de
Machico reforça a confiança na autoridade de saúde, na Protecção Civil e nas
Forças de Segurança, bem como enaltece todas as entidades e instituições do
concelho que envidam diariamente todos os esforços para garantir a manutenção
da saúde pública e o bem-estar da população de Machico e defende ser seguro
visitar o concelho.” Novamente, este aspecto não tem relação directa com a
notícia.
O conceito e os números
O DIÁRIO não escreve
que Machico é considerado de elevado risco porque lhe apetece. Isso resultou da
análise dos números de toda a Região e da aplicação rigorosa dos conceitos seguidos
pela DGS e pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças.
Os números que
originaram a notícia foram dos 14 dias anteriores a segunda-feira passada. Mas os
números recolhidos, em qualquer dia desta semana, dariam o mesmo resultado:
Machico enquadra-se folgadamente no critério de concelho de elevado risco.
Eis o conceito, na
explicação da DGS, no Relatório de Situação do dia 14 deste mês: “A Incidência
Cumulativa a 14 dias de infeção por SARS-CoV-2/ COVID-19 corresponde ao
quociente entre o número de novos casos confirmados nos 14 dias anteriores ao
momento de análise e a população residente estimada, por concelho, a 31 de
dezembro de 2019, pelo Instituto Nacional de Estatística, IP. Habitualmente é
expressa em número de casos por 100 000 habitantes. Exemplo: Nos 14 dias
anteriores ao dia de análise, 50 casos de infeção por SARS-CoV-2/ COVID-19
foram atribuídos a um determinado concelho, com uma população residente de 150
000 habitantes. Incidência cumulativa a 14 dias = (50/150 000) x 100 000 = 33,3
casos por 100 000 hab. A classificação é realizada de acordo com as categorias
utilizadas pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças”.
A DGS também define
os graus de risco:
- Inferior a 240 –
risco moderado
- Entre 240 e 480 –
risco elevado
- Entre 480 e 960 –
risco muito elevado
- Mais de 960 – risco
extremamente elevado
Na segunda-feira,
Machico apresentava 305 casos por 100 mil habitantes. Hoje apresenta 295. Tanto
num caso quanto no outro, bem acima dos 240 a partir dos quais os concelhos são
considerados de elevado risco.
