
Um ar condicionado que não arrefece, uma carpete coçada, um chuveiro que pinga (em vez de correr): eis três monstruosidades que nenhum turista está disposto a suportar, nem numa pensão do Entroncamento. Sujeitos a um uso mais intenso que o das nossas casas, os hotéis precisam de manutenção permanente dos seus sistemas de tratamento do ar, canalizações, revestimentos, mobiliário, etc.. Quando a manutenção já não resolve o problema, procede-se, ao restauro do edifício. Para o gestor hoteleiro é a oportunidade de dar “uma nova cara” ao hotel: novo chão, novo tecto, nova fachada, novas portas, novas janelas (a mudança, como costuma dizer-se, é a alma do negócio e o que cheira a novo vende melhor). O restauro transforma-se, então, numa operação plástica tão profunda que, por regra, do edifício original não fica senão a velha ossatura recoberta no exterior pela arquitectura da moda e no interior pela moda da decoração.
A verdade, porém, é que muitos dos hotéis que hoje rondam o meio século de existência passavam bem sem estas profundas operações. Nas fachadas, as superfícies em betão aparente, acabamento comum nos anos 60, nunca deveriam ser pintadas de cinzento, sob pena de se transformarem em imitações pastosas do original; as caixilharias em madeira exótica, hoje tão caras e tão difíceis de reproduzir, nunca deveriam ser substituídas por caixilharias em alumínio; e as floreiras, tão comuns na arquitectura do século passado, nunca deveriam dar lugar à banalidade modernaça das guardas em vidro laminado. Infelizmente, na Madeira é o que, invariavelmente, tem acontecido. Raros foram os hotéis que, em vez de um restauro criterioso, não foram vítimas de “plásticas” mal feitas.
Honra seja feita ao modesto Hotel do Carmo, cuja renovação conservou os interiores e o mobiliário da época (que inclui as excelentes cadeiras “Caravela”, da Olaio, desenhadas por José Espinho, cujo fabrico teve início em 1965). Constato, todavia, que na publicidade do estabelecimento se considera a decoração dos interiores do hotel “subordinada ao tema dos anos sessenta”. Lamentável erro! Pode alguém considerar um bife do lombo “subordinado ao tema da vaca”? Não. O bife é parte da vaca, tal como o Hotel do Carmo é parte dos anos sessenta. Não estamos aqui, portanto, como a publicidade poderia fazer crer, perante um caso de “decoração temática” ou, pior ainda, de um “hotel temático”. O Hotel do Carmo foi renovado conservando a sua “autenticidade”.
Mas o que é a “autenticidade”? Eis a questão... A ela só sei responder como Santo Agostinho quando lhe perguntaram o que é o “tempo”: - “se ninguém me pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei”.