É um lugar comum, quase uma moda, dizer que a Madeira andou (anda) de costas viradas para o mar. Por mais que me esforce para perceber esta perspetiva, não consigo chegar lá.

Antes de abordar o tema específico que me faz escrever estas linhas, começo por contrariar esta perceção, fazendo uma rápida viagem à minha juventude. Lembro-me bem que aos 7 ou 8 anos já estava dentro de um optimist. Mais tarde, por volta dos 14 anos, remava num yolle de quatro, saindo da Barreirinha, normalmente, em direção ao Lido (na época balnear sempre conseguíamos associar o treino com uns namoricos!).

Tal como hoje, eramos muitos no mar. É um gosto ver a atividade em São Lazaro, particularmente dos miúdos. Valorizo ainda mais toda esta dinâmica, ao me aperceber o quanto as nossas montanhas estão vazias neste contexto da formação, aprendizagem e estruturação cultural, através da atividade física.

Deixando estas lembranças de juventude com cheiro a maresia, olho então para o passado e presente da conservação da natureza no nosso mar. Foi já há 48 anos que foi criada, na Madeira, mais propriamente nas Ilhas Selvagens, a primeira Área Marinha Protegida de Portugal. Como diz o poeta, o caminho fez-se caminhando, e culminou na recente criação do Sítio de Interesse Comunitário Cetáceos (SIC Cetáceos).

Ao longo deste percurso foram surgindo verdadeiros marcos históricos, em termos da conservação da natureza no mar da Região. É impossível não valorizar, por exemplo, a criação no Garajau da primeira reserva exclusivamente marinha de Portugal. Nas Desertas, também, se fez história. Aqui, o projeto de conservação iniciou-se no terreno, dois anos antes de ter sido transposto para o “papel”.

Com o aumento do conhecimento científico sobre as nossas espécies marinhas, foi expandida, em 2014, a área marinha da Rede Natura 2000 associada às Ilhas Desertas e Selvagens. O nosso mar profundo, numa significativa área à volta destas ilhas, ficou assim protegido.

Recentemente, dando resposta a uma nova dinâmica de sustentabilidade socioeconómica associada ao património natural do nosso mar, foi implementado o conceito de Parque Natural Marinho na Região. O esforço desde então efetuado, no sentido de aumentar o conhecimento, deixa antever que, em breve, poderão ser criados novos sítios da Rede Natura 2000 associados a estas áreas protegidas.

Estamos perante uma dinâmica que vem de longe e que não terminará na SIC Cetáceos. O desafio que agora se levanta à entidade com competência na área da Conservação da Natureza, passa pela implementação de medidas de gestão adequadas aos propósitos da criação desta área.

Este caminhar com 48 anos foi, também, marcado por significativos reconhecimentos internacionais. Neste campo, importa destacar o Diploma Europeu para as Áreas Protegidas, atribuído às Selvagens e Desertas, o Prémio Lide Preservar o Mar, o recente Galardão Glores, atribuído às Ilhas Selvagens, e 3 prémios europeus para os trabalhos de conservação dirigidos a espécies marinhas ameaçadas.

Será que era possível fazer tudo isto de costas viradas para o Mar? Não me parece!