“Nós, os privilegiados que mais temos, mais temos de dar.” Presidente da República, in DN- Madeira de 23 de dezembro 2018

Para os migrantes em fuga da guerra ou da miséria pelas águas do Mediterrâneo, ou em marcha de Sul para Norte nessa América imensa, privilegiados serão os habitantes da Europa e do território ianque para além do Rio Grande, onde esperam encontrar refúgio, paz, trabalho e oportunidade de uma vida decente. O dicionário define “privilegiado”, como “o que goza de privilégio, de certas prerrogativas e imunidades; que recebeu da natureza algum dom particular; que é abastado, possui riqueza, alto nível de vida, a que a maioria da população não tem acesso; etc.” E do “privilégio” diz ser “direito, vantagem, regalia, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; dom natural, talento, sorte; situação de superioridade decorrente da distribuição desigual do poder político e/ou económico; direito ou vantagem especial que se concede a uma ou mais pessoas, com exclusão dos outros...”

A noção de privilegiado contrapõe-se à ideia de destituído, e ganha especial significado nesta quadra natalícia que agora termina... E a sua magia torna-nos mais sensíveis, permeáveis à quase obrigação de dar algo a alguém, inspirados pelo exemplo de generosidade dos Reis Magos e toda a envolvência do episódio milenar de Belém - a de Judá. Ou seduzidos pelo consumismo. Como se assim redimíssemos os pecados de um mundo de dolorosas e iníquas desigualdades, que no resto do ano, em regra ignora as fragilidades e carências de tantos e é tão avaro e parco na legítima e fraternal partilha da parcela de bem-estar a que todo o ser humano tem direito...

Mas é o sortilégio desta época que nos alerta para o paradoxo de conjugar privilégio com os valores de justiça, igualdade, fraternidade, partilha, – o múnus da democracia. À luz dos princípios universais, excluindo a natural atribuição de dons e capacidades individuais únicas e excecionais, situações de privilégio injustificado serão questionáveis quanto à sua legitimidade. E não deixará de parecer arbitrária qualquer atribuição de prerrogativas materiais a um indivíduo ou grupo restrito, em detrimento de outros, de que resultarão certamente tantos destituídos. As questões de berço, geografia, posicionamento político, económico e social não deveriam colocar-se em democracia. Quanta desigualdade, injustiça, exclusão, conflito radicam daqui?

O espetáculo dos mediáticos jantares natalícios aos pobres e sem-abrigo não teria razão de ser, se a justa repartição e partilha equitativa dos recursos e bens fosse a norma... E se a humana empatia com as dores dos excluídos estivesse no coração da política... A tríade pobreza-marginalização-exclusão não resulta de um fortuito desígnio astral fatalista, ou birra de um qualquer Deus zangado; baseada em lógicas sabiamente manipuladas, ela nasce da gestão política da riqueza e dos recursos da natureza, desde sempre reféns da ganância e da sede de poder de uns quantos. Como as definições dos dicionários apontam. Pesem as intenções e o simbolismo que a presença de altas figuras da cena política sem dúvida representa, o “dar” fortuito e sazonal é um pobre arremedo do que deveria ser uma justiça social devidamente acautelada numa sociedade desenvolvida. Uma prática de justiça cósmica. Porque enquanto benesse voluntária, foge à alçada de um direito legítimo e parece remeter para sentimentos de gratidão por parte de quem recebe... Soa a incongruência e humilhação e não dignifica a democracia. O meritório exercício da generosidade e da solidariedade humanas é outra coisa...