Por mais que se admire a paisagem bucólica a sul do Tejo, a lonjura da planície, o porco preto por entre sobreiros e azinheiras, o montado e o cante alentejano (agora reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade), a Madeira não é o Alentejo. Por mais que nos apaixonemos pelas suaves e verdes montanhas açorianas polvilhadas por vacas felizes, pelas suas lagoas, pelo seu queijo e pelo sotaque micaelense, a Madeira não é os Açores. A Madeira tem as suas características próprias, a sua imagem distintiva, o seu património cultural e ambiental endémico. Importar modelos de outras realidades e jogá-los para cima de nós, assim sem mais nem menos, é o primeiro passo para a catástrofe.

Depois de, há 15 anos, ter sido concluído o processo de ordenamento silvopastoril no Arquipélago da Madeira, e ainda mal recuperados de séculos da intensa pressão do gado sobre a nossa flora indígena, eis que alguém, sem discutir o assunto com quem se dedica à conservação da natureza e encostando-se apenas àqueles que sempre se opuseram à existência de regras na atividade, lembra-se de abrir a caixa de pandora e libertar etapas já encerradas neste lento processo de recuperação do coberto vegetal autóctone. Envolto de argumentos pseudocientíficos, ressurge, no calor eleitoral, vontades para fazer regressar o gado a zonas libertadas na alta montanha da ilha da Madeira, Áreas Protegidas, Sítios da Rede Natura 2000, locais estes onde várias espécies da nossa flora, assim como habitats prioritários, se têm vindo a expandir nestes últimos 15 anos a partir de fissuras e patamares rochosos que estiveram inacessíveis à voracidade do gado ao longo de séculos. Na cabeça de alguns engenheiros técnicos agrários (desculpem-me os 99,9% dos engenheiros técnicos agrários aos quais não se aplica este comentário), a floresta indígena da Madeira, e toda a flora milenar deste Arquipélago, deve ser gerida como um campo de couves ou um vinhedo. A floresta não é constituída apenas por árvores e nem tão pouco a nossa flora se resume a floresta. É ao nível do solo que as formações florísticas madeirenses desenvolvem a maior parte da sua riqueza, muitas vezes são apenas pequenas plantas, mas de valor natural e científico incalculável, que não se encontram em outras partes do mundo. Bastará uma cabra ou uma ovelha a deambular por estas zonas sensíveis para que, cirurgicamente, deixando intactas as espécies invasoras mais adaptadas à herbivoria, sejam dizimadas as pequenas populações de flora autóctone que estão em recuperação.

A flora madeirense involuiu ao longo de milhões de anos longe de grandes herbívoros. As espécies invasoras provêm de zonas onde esses herbívoros existem e, como tal, estão adaptadas para lhes resistir. Achar que libertar gado nas serras é uma forma milagrosa de combater as invasoras é uma falácia, basta ver a escolha que as vacas fazem no Fanal, comem as urzes e os rebentos de Til, e deixam intactas as giestas e as carquejas. Escolhem as mais tenrinhas e frágeis, as nossas, e só quando estas lhes faltam sujeitam-se às exóticas. Acresce que a fertilização dos solos com os dejetos dos animais pode dar ainda mais vantagem ao desenvolvimento da vegetação exótica, já que muita da vegetação indígena nestas zonas mais altas depende da existência de solos mais pobres para ganhar na competição entre espécies. Recordo que foi necessário, há 2 décadas, iniciar o controlo da população de gaivotas no Ilhéu Chão, nas Desertas, pois os seus dejetos estavam a aumentar a nitrificação do solo e, com isso, a provocar a alteração da flora local.

Os piores incêndios registados nas serras da Madeira ocorreram enquanto aí permaneciam largos milhares de cabeças de gado. O gado não é bombeiro (quem assim considera até ofende os profissionais nesta área). O gado pode ser uma boa ferramenta para gerir o excesso de vegetação em algumas zonas. Infelizmente a alta montanha não tem excesso de vegetação, antes pelo contrário. A meia encosta sim. Entre as zonas habitadas e a alta montanha desenvolvem-se matagais de espécies invasoras. Aqui sim, seria útil a silvopastorícia para reconverter estes espaços em florestas mais resistentes aos incêndios e que produzam algo de útil à sociedade. Aqui sim, se quisermos, podemos ter um pouco do Alentejo. Com o abandono da agricultura os nossos espaços rurais ficaram à mercê do avanço dos matagais invasores, aumentando o risco de incêndio e pondo em causa a vida das pessoas e os seus bens. Aqui sim, a pastorícia pode dar um importante contributo para atenuar o problema e, ao mesmo tempo, criar algum valor económico. Aqui si, se quisermos, podemos ter um pouco dos Açores.

Na alta montanha precisamos de recuperar a nossa flora para que mantenhamos o nosso património natural e possamos maximizar os serviços de captação de água, prevenção de aluviões e atração turística. Na alta montanha, para recuperar a nossa flora milenar, o gado não tem nada de bom para nos oferecer.