Um telemóvel na mão e a ideia de preservar direitos civis é o lema adotado por moradores e ONGs das comunidades pobres do Rio de Janeiro, que incentivam o uso de vídeos para denunciar violações e ensinar como evitar a violência policial.
Na cidade mais emblemática do Brasil, onde um quarto da população vive em favelas segundo o último levantamento divulgado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), problemas causados por abordagens indevidas de agentes das polícias contra moradores de áreas pobres são comuns.
O problema tornou-se foco de trabalho de uma organização chamada Defezap, que trabalha na área de comunicação recebendo, analisando e encaminhando vídeos que mostram ações indevidas e criminosas praticadas por polícias contra a população.
“Somos uma plataforma em que vídeos podem ser enviados com o objetivo de se tornarem uma denúncia oficial, [elementos para] comprovar atos de violência ilegítimos e para subsidiar medidas de reparação do Estado”, explicou Guilherme Pimentel coordenador-geral do projeto.
O responsável explicou à Lusa que a plataforma começou a ser idealizada em 2014, meses depois dos protestos contra ao reajuste das tarifas de autocarros que desencadearam uma onda manifestações no Brasil, quando aconteceram inúmeros episódios de violência de policias contra manifestantes.
“Em quase dois anos já identificamos cerca de 150 casos de violência de Estado com os vídeos. Destes, cerca de 70 possuíam elementos mínimos para formularmos uma denúncia e eles já foram encaminhados e geraram investigações oficiais”, disse.
A ação mais relevante do Defezap aconteceu no ano passado, quando moradores do complexo do Alemão denunciaram agentes das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), que haviam invadido casas e expulsados pessoas para usar os locais como observatório ou zona protegida para trocar tiros com criminosos.
“Fizemos um vídeo vivo ao no Facebook em parceria com o coletivo Papo Reto mostrando [as invasões das casas] em flagrante”. Os “moradores nos mandaram várias provas e nós encaminhamos à Defensoria Pública, que ajuizou uma ação civil pública e conseguiu uma decisão judicial ordenando a saída imediata dos polícias das residências”, relatou.
“O Ministério Público também fez uma denúncia criminal contra o comandante geral das UPP e outra contra um major que comandava a UPP de Nova Brasília porque verificou que as invasões faziam parte de uma estratégia do Estado para o local, o que é uma violação inadmissível”, acrescentou Guilherme Pimentel.
Lançado em 2016, o Defezap foi financiado pela Open Society Foundation e atualmente é suportado pela organização não governamental Meu Rio.
Os moradores de favelas ‘cariocas’ também têm feito vídeos com dicas para agir em caso de abordagem imprópria das policias que se tornaram virais no último mês.
Um dos que obteve grande alcance chama-se “Intervenção no Rio: Como sobreviver a uma abordagem indevida” e foi feito por três jovens, o publicitário Spartakus Santiago, o repórter Edu Carvalho e o ‘youtuber’ AD Junior, que moram em comunidades pobres da capital ‘carioca’.
Amplamente divulgado nas redes sociais, o vídeo já obteve mais de 116 mil visualizações.
Seus autores explicaram que, por serem negros, são mais vulneráveis às ações indevidas e à violência da polícia e decidiram alertar a população das favelas com o mesmo problema.
“Estamos aqui a fazer este vídeo porque, infelizmente, nós negros somos sempre vítimas de abusos e retaliações”, disse Edu Carvalho.
Entre as dicas mais polémicas estão conselhos para evitar o uso de guarda-chuvas longos ou até mesmo de berbequins dentro das favelas porque estes objetos podem ser confundidos com armas.
Os autores do vídeo também recomendam estar sempre com um telemóvel carregado porque isto permite não só a comunicação em caso de emergência, mas também o registo qualquer tipo de abuso.
