
Dezembro é o mês em que chega o circo à cidade e os palhaços fazem a alegria de todos. Fazem-nos rir e, desta forma, fazem-nos esquecer a realidade. Contagiados por esta arte circense, por ocasião da discussão do orçamento regional, deputados de alguns partidos políticos na nossa Assembleia Regional, numa imitação rasca, pareciam estar no circo numa grande palhaçada.
Entre um rasgar dum documento por um deputado do PSD na cara do deputado do PCP em plena sessão, a revelação da existência de uma “velocidade furiosa” no PSD e de imagens pornográficas de um deputado do PS em instalações de uma Junta de Freguesia, fico indecisa a quem atribuir a estatueta do “Palhaço de Ouro.
Tudo isto fez-me lembrar a campanha do Tiririca para deputado federal do Brasil. Tiririca ficou famoso por se vestir de palhaço e pelo seu slogan: “O que é que faz um Deputado Federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto. Pior do que tá, não fica!”.
Efetivamente, muitos deputados de vários partidos políticos parecem que não sabem o que lá estão a fazer. Como diz o povo: “Diz-me com quem andas que eu te direi quem és”. Perante as reações, serão todos iguais? Que fizeram os outros deputados dos partidos envolvidos e dos outros partidos para mostrarem a sua diferença?
A demissão do “velocidade furiosa” era inevitável. Insistir no erro era cair ainda mais no poço que o PSD escavou nos últimos 3 anos e meio. Ainda assim, foi revelador da síndrome de impunidade que alguns deputados e governantes acham que têm. Vá lá que alguém no PSD teve juízo. Vá lá que se evitou uma nova queda livre.
Cada um destes atos de Dezembro deveria determinar a perda de mandato dos deputados envolvidos nestas polémicas. Só assim se ganharia respeito das pessoas e se imporia regras para uma boa conduta. Por muito menos, noutros locais, houve lugar à demissão.
À conta destes acontecimentos, o mais importante perdeu-se. Afinal, quem se lembra que tudo isto ocorreu durante a discussão do orçamento da nossa Região? Quais as medidas do Governo para 2019? Que obras estão previstas? Que apoios haverão? Como estão as nossas contas públicas? Qual a correlação entre o dinheiro existente no orçamento para 2019 e medidas populistas com vista às eleições do próximo ano? Está garantida a independência do orçamento do governo do financiamento da campanha do partido que governa?
Esquecemo-nos que o dinheiro do orçamento do Governo é o nosso dinheiro. Não acha, caro leitor, que deveria ter informações de como será investido o seu dinheiro? Não é com sessões por concelhos, imitando o orçamento participativo da Câmara Municipal do Funchal, que passamos a ter uma noção geral do investimento a realizar. Todas essas ações de divulgação são meritórias e procuram aproximar Governo e Câmara das populações, mas o local próprio para discutir e fazer a divulgação plena das medidas previstas nos orçamentos é na Assembleia Regional e na Assembleia Municipal.
Quais os resultados de tudo isto?
Voltamos a ser chacota nacional e a nossa autonomia e governação perdeu credibilidade. Não pensem os governantes que o que se passa na Assembleia não os atinge. Por acaso a sua governação não é sustentada pelos deputados que estão na Assembleia? Pensem nisto quando verem a atuação e intervenção dos vossos deputados. E pensem nisto quando levantarem a voz para pedir o voto. Quem terão, em 2019, na lista para deputados da Região?
Mas, não pense, caro leitor, que isto também não lhe atinge. Todas estas situações menos próprias só servem para que os nossos conterrâneos pensem que somos uma cambada de incompetentes, pura “ralé” e que nos “sustentam”, manifestando-se contra qualquer medida do governo nacional a nosso favor. Por isso, não seja conivente com estas situações. Exija profissionalismo e respeito dos políticos. Exija qualidade.
A nossa autonomia é importante, mas não podemos esquecer-nos que somos parte de Portugal. As nossas especificidades exigem um bom relacionamento com o Governo da República. Sem agachamentos. De cabeça levantada. E isto só se conquista com profissionalismo, muito trabalho, estudo e competência. Palhaçadas só nos prejudicam.
A Madeira vive momentos complicados e desafiantes da sua história. Em 2019 seremos chamados a decidir qual o futuro que queremos e esta decisão implica escolher quem queremos a governar-nos. Saibamos exigir respeito.
Com o ano novo à porta e apesar de estarmos a viver num “Trapiche”, em 2019, façam o favor de serem felizes!