Há dias, foi apresentada uma curta informação num canal televisivo, tipo conversa corriqueira, sobre as conservas portuguesas.

Aparentemente, esse alimento de pobre, recurso para os dias magros, de barras fechadas, de falta de tempo ou de combustível, está de regresso. E -pasme-se! – não nessa função de modesto expediente tradicional de enganar a fome, mas na qualidade de prato gourmet.

Mais uma vez, nada de novo sob os céus: a título de exemplo, passou a ser corrente, nos restaurantes mais sofisticados, molhar o pão no azeite, como nos tempos em que o toucinho estava racionado, o chouriço guardado para dias de festa, e a manteiga era desconhecida (com exceção das Ilhas, onde o azeite era como uma droga, importada de longes terras).

Pois o relançar das conservas portuguesas só nos pode trazer satisfação. As sardinhas portuguesas foram uma referência nacional durante decénios, e agora estão a ponto de estar a ser encarada a possibilidade de serem incluídas no Património Imaterial da Humanidade, como já sucede com a Cozinha Mediterrânica.

Se perguntarmos a alguém da mais recente geração de madeirenses onde eram as Conservas, dificilmente obterá resposta; mas a Doca do Cavacas, todos sabem onde fica. Ou, no Continente, o que representam, para essa geração, as ruinas das fábricas de Setúbal ou do Algarve. Perda da memória coletiva? Talvez, mas há outros aspetos.

Na tal conversa do programa televisivo, insistiu-se na recordação do alimento de recurso. Mas assim esquecem-se duas coisas.

Primeiro, a imagem de marca, indissociável do cunho nacional, que as latas de conserva de sardinhas portuguesas representavam, e que agora se pretende reabilitar.

Segundo, a recordação que mais de oitocentos mil portugueses guardam das latas de conserva, componentes obrigatórios das chamadas “rações de combate”, usadas durante a Guerra Colonial, ou do Ultramar (em termos gastronómicos, tanto faz).

Talvez as recordações não sejam as melhores; talvez as complicações gastro intestinais, surgidas a posteriori, sejam desmotivadoras; talvez a repetição forçada da ementa seja traumática. Mas a referência existe, e é disso que se trata.

Comemorou-se recentemente o centenário do fim da I Guerra Mundial, enaltecendo-se o frente de batalha da Flandres e esquecendo (conforme a tradição) as frentes de Angola e de Moçambique, onde combateram maiores efetivos e onde houve mais baixas, a maioria por doença (não sei que espécie de conservas havia).

Nunca passou pela cabeça dos humildes combatentes que tiveram de comer as conservas de sardinha, de chouriço ou de merenda de carne que tais “petiscos” haviam de ser, num futuro então inimaginável, considerados pratos “gourmet”.

Boa sorte para a promoção das nossas conservas. Talvez assim se contribua também para salvaguardar as nossas memórias, boas e más, contrariando o “varrer para debaixo do tapete”, a “não inscrição” e o esquecimento deliberado da realidade que foi uma Guerra com quase dez mil mortos e o triplo de deficientes permanentes.