Quase 90% dos trabalhadores abrangidos por um inquérito nacional da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) afirmam-se satisfeitos com o seu emprego, mas menos de metade considera ter uma remuneração adequada ou boas perspetivas de progressão na carreira.
O Inquérito Nacional às Condições de Trabalho em Portugal Continental - cujos resultados finais são apresentados na sexta-feira, em Lisboa - foi realizado com base numa amostra de 1.500 pessoas trabalhadoras e 1.004 entidades empregadoras.
Segundo o estudo, 89,9% dos inquiridos sente-se satisfeito com o seu trabalho, não havendo diferenças, a este nível, entre mulheres e homens, concentrando-se os insatisfeitos sobretudo nos setores da ‘construção’, ‘alojamento, restauração e similares’, ‘atividades administrativas e dos serviços de apoio’, ‘agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca’, ‘atividades de informação e de comunicação’ e ‘atividades de saúde humana e apoio social’.
Contudo, apenas 41,9% das mulheres e 32,8% dos homens afirmam ter uma “remuneração adequada ao trabalho” que efetuam e somente cerca de 40%, tanto de homens como de mulheres, consideram que o trabalho lhes oferece boas perspetivas de progressão na carreira.
Realizado pelo Centro de Estudos para a Intervenção Social (CESIS), o inquérito pretende promover um melhor conhecimento das condições de trabalho em Portugal, nomeadamente ao nível dos fatores de exposição aos riscos profissionais, meios afetos à prevenção das empresas, ações e métodos de divulgação das medidas preventivas, formação e participação dos trabalhadores.
O estudo abordou quer as relações contratuais, quer a duração e organização do tempo de trabalho, a exposição a fatores de risco, a saúde e segurança no trabalho e aspetos respeitantes à parentalidade e à conciliação da vida familiar com a vida profissional, na perspetiva dos trabalhadores e dos empregadores.
Da população inquirida, pouco mais de metade tinha, no máximo, 39 anos e cerca de 44% atingiu, no limite, o 3.º ciclo do ensino básico, sendo que 18,7% possuía o ensino superior.
Do inquérito resulta que “são os homens que detêm os níveis de escolaridade mais baixos” e que as mulheres “assumem protagonismo nas profissões que exigem um maior nível de qualificação” (11,6% das mulheres enquadram-se na categoria ‘especialistas das atividades intelectuais e científicas’, contra 6,5% dos homens) e, consequentemente, “encontram-se comparativamente, em maior percentagem nos quadros superiores e entre profissionais semiqualificados).
No que se refere às relações contratuais, o contrato de trabalho sem termo é a tipologia predominante entre os inquiridos, representando 70,6% do total (71,3% nas mulheres e 69,9% nos homens), sendo que sete em cada dez trabalham, na sua principal atividade profissional, entre 35 e 40 horas semanais (71,9% de homens e 75,7% de mulheres), sendo este considerado o período normal de trabalho.
No entanto, 5,8% das pessoas trabalham menos de 35 horas semanais (9% de mulheres e 2,6% de homens), enquanto um quinto dos trabalhadores têm períodos de trabalho superiores às 40 horas semanais previstas na lei, sobretudo homens (25,4%, mais 10,2 pontos percentuais do que as mulheres).
“De uma maneira geral, em termos médios, os trabalhadores homens dedicam por semana 42 horas e 12 minutos à sua principal atividade profissional, enquanto o tempo afeto pelas mulheres se situa, em média, nas 39 horas e 35 minutos, representando uma diferença de menos três horas e 26 minutos”, conclui o inquérito.
Além da atividade profissional principal, 15,4% dos inquiridos acumulam um trabalho remunerado secundário, destacando-se os trabalhadores com horário noturno como os que mais expressam “dificuldades de articulação entre vida profissional, pessoal e familiar”, seguidos de quem trabalha por turnos e aquelas com horários de trabalho longos.
Na área da proteção na parentalidade, o estudo revela que cerca de metade dos trabalhadores inquiridos têm filhos/as ou crianças a cargo (53,8% das mulheres e 46,2% dos homens) e que a maioria (62,2%) tem apenas um filho.
Entre os trabalhadores que tiveram ou adotaram filhos nos últimos cinco anos, a licença parental inicial foi gozada por 91,8% das mulheres e apenas por 69,1% dos homens, tendo quase um quarto das mulheres gozado uma licença inferior a 120 dias e apenas 5,9% gozado um período de licença parental inicial de 180 dias.
“Em 59% dos casos -- lê-se no estudo - terá havido lugar à partilha da licença parental inicial entre a mãe e o pai da criança. Contudo, o número médio de dias de licença gozado é muito assimétrico em função do género: as mulheres gozaram em média 123 dias, face a uma média de 18 dias de licença parental inicial gozados pelos homens”.
Do inquérito realizado às entidades empregadoras resultou, entre vários aspetos, que cerca de 11% registaram acidentes de trabalho durante os dois últimos anos, num total de 2.139, dos quais 633 envolveram mulheres e 1.364 envolveram homens.
Do total dos acidentes registados, cerca de 86% (1.830) envolveram baixa médica e aproximadamente 13% (282) envolveram baixa médica e internamento, tendo-se registado um acidente mortal.
Distrações, descuidos, falta de atenção (55,5%), mas também posturas incorretas ou realização de esforços e/ou movimentos extremados durante a tarefa (26,4%) e rapidez na realização do trabalho (18,2%), foram apontadas pelos empregadores como as principais causas dos acidentes de trabalho ocorridos.
