Durante os dias 20-21 deste mês discutiu-se na Ilha Terceira, nos Açores, a criação de um centro de investigação do Atlântico (‘AIR – Atlantic International Research Center’), no âmbito do fórum ‘Atlantic Interactions’. Este foi o 14º encontro nesta temática e contou com a participação de representantes (ao mais alto nível) de 19 países do Atlântico (Portugal, Espanha, França, EUA, Brasil, Africa do Sul), bem como de países interessados em ter presença aqui, tais como China e India.

A inspiração para este encontro foi a proposta da ONU (Organização das Nações Unidas), para 2030, que visa promover o desenvolvimento sustentável, combinando a exploração de recursos (naturais da Terra), no âmbito de um desenvolvimento económico assente no conhecimento científico. De fato, uma das principais conclusões deste encontro foi a de que ‘um imperativo para construir uma sociedade alicerçada numa economia assente no conhecimento, demanda um investimento no coletivo (independentemente da idade, origem étnica ou estatuto social), proporcionando a todos o acesso a uma educação científica de qualidade, bem como acesso às melhores práticas científicas’. A sociedade em geral necessita de poder aceder a mais e melhor informação científica de forma a poder assessorar cabalmente as tomadas de decisão. As gerações futuras precisam de acumular mais (e melhor) conhecimento, precisam de ser mais criativas, de forma a poderem responder responsável e rapidamente ao Mundo atual, que está em constante transformação. Informação é de fato Poder neste novo contexto da Globalização!

Com este desígnio, os participantes concordaram em alinhar estratégias no âmbito da investigação e da economia, fomentando uma cooperação internacional na dinamização do AIR. Um dos aspetos importantes para nós Ilhéus, e que emanou deste encontro foi o fato das Ilhas do Atlântico (Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde, Fernando Noronha, entre outras), serem consideradas locais primordiais para promover a observação, monitorização e experimentação no âmbito das ciências oceânicas, atmosféricas, climáticas bem como no âmbito da exploração espacial, nomeadamente com a criação de rampas de lançamento de satélites (Europeus, Indianos e Chineses), de pequeno porte e a baixo custo. A localização remota de algumas das ilhas Atlânticas favorece a sua utilização como plataformas com elevado potencial para o desenvolvimento do conhecimento da Terra (atmosfera, oceano, clima e espaço). Basta analisarmos o impacto do Observatório Astronómico das Canárias, localizado em Santa Cruz de Tenerife e que conta com a presença de investigadores e de organizações internacionais; ou da PLOCAN – Plataforma Oceânica das Canárias por onde passam regularmente comunidades de investigadores (e de investidores!) estrangeiros.

Ao deambular pelo encontro e discutindo com o ‘mundo’ interrogava-me porque é que tal iniciativa nunca foi pensada (nem organizada) na Madeira. Concluí que temos ainda algum caminho a percorrer, de forma a nos podermos tornar parceiros ativos no desenvolvimento da economia com base no conhecimento. Julgo que não chega criarmos ‘Brava-Valleys’, ‘DRIVEs’ e ‘Start-ups’ com vista a capturar os fundos europeus disponíveis e a curto prazo. Tal como podemos constatar na maior parte dos campus universitários pelo País fora, que ‘spin-offs’ rapidamente fazem ‘spin-down’, quando são desprovidos de uma estratégia traçada a longo prazo. Quantas mais empresas de jogos virtuais vamos ter de criar para nos autodenominarmos a ‘Singapura do Atlântico’? Precisamos urgentemente de alinhar a nossa estratégia de desenvolvimento económico com uma estratégia de desenvolvimento do conhecimento científico, de forma a podermos fazer algo realmente inovador e que nos dê a visibilidade necessária para participar nestas discussões de cariz e de impacto global.

Termino com um pensamento cativante, proferido pelo Ministro para a Ciência e Tecnologia da Nigéria (Ogbonnaya Onu): ‘Cada geração deve aspirar entregar um mundo melhor à próxima geração’.