A “Pensação do Menino”, representação natalícia conhecida desde o século XIX, oriunda do norte da Madeira e proibida então pelo bispo Manuel Agostinho Barreto por a considerar “indigna” para a Virgem, mantém-se, contudo, viva na Boaventura, São Vicente.

Segundo relatos de prelados e investigadores, a “Pensação do Menino” é um exercício de transmutação da divindade de Jesus, trazendo-a à condição humana, da sua inacessibilidade à proximidade com as gentes.

A “Pensação”, segundo o padre Élio de Freitas Gomes, é uma representação que envolve crianças, jovens e adultos dentro da liturgia da Missa do Galo e começa após o cantar do “Glória”, seguindo-se a anunciação, por um anjo, no púlpito, do nascimento de Jesus e a encenação “consagrada por versos e gestos que dão corporalidade ao divino”.

O anjo solista, acompanhado por um coro de anjos, entoa os versos desde o nascimento de Jesus, até o colocar a dormir.

Num lugar mais destacado da igreja e ao lado do presépio, é colocada uma mesa a fazer de palco e, sobre ela, um berço, um lavabo, panos, uma imagem do Menino Jesus e uma cadeira onde o anjo se coloca em pé e vai representando, gestualmente, a “Pensação”, ou seja, acompanhando o que é declamado.

“Então, ele prepara o Menino Jesus, dá-lhe banho, veste-o, mostra-o e coloca-o dentro do berço, abafadinho”, sintetiza o padre Élio, acrescentando que, “no fundo, é mostrar ao mundo a parte humana de Deus, aquilo que o anjo faz é apresentar uma imagem do Menino Jesus, Deus feito homem, com todos aqueles cuidados que uma mãe tem para com uma criança para adormecê-la, tocando devagarinho no rosto e puxando o lençol ou a mantinha para o cobrir. É uma maneira de descobrir a parte humana de Deus”.

Esta representação atrai, na noite da Missa do Galo (que este ano terá lugar às 02:15 devido às responsabilidades do padre nas outras paróquias) não só os naturais da freguesia da Boaventura, no concelho nortenho de São Vicente, mas também muitos crentes e forasteiros do Funchal, segundo o sacerdote.

“Vem muita gente para ver a Pensação”, conta o pároco responsável pelas paróquias da Boaventura, Fajã do Penedo e de Ponta Delgada, no Arciprestado de São Vicente e Porto Moniz.

“A terceira cena do Auto do Natal é conhecida, entre o povo, pelo nome de ‘Pensação’ do Menino. Era primitivamente desempenhada por duas personagens - um anjo e uma pensante. Esta aparecia em cena vestida de branco e trazendo um berço e roupinhas para oferecer ao Deus Menino. Acolitada pelo anjo, desempenhava diante dos fiéis cinco ações importantes - apresentava o Menino ao povo, lavava-O, vestia-O, deitava-O no berço e embalava-O”, escreve padre Manuel Juvenal Pita Ferreira, na sua obra “O Natal na Madeira”.

Eduardo Pereira, no seu trabalho “Ilhas de Zargo”, refere que, “em muitas partes da ilha, principalmente no norte, observa-se uma representação tradicional, misto de religioso e profano, que transforma a igreja da aldeia num verdadeiro teatro de pastorelas ao sabor bucólico da Idade Média, é a de pensar o Menino”.

O padre Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Menezes, na obra “Elucidário Madeirense”, alude também a esta representação natalícia, adiantando que, “não há muitos anos, era uso nalgumas freguesias da Madeira ‘pensar’ a imagem do Deus-Menino na noite de Natal, isto é, lavá-la e vesti-la sobre um estrado colocado dentro da igreja”.

O historiador madeirense Nelson Veríssimo, no seu estudo “Natal Madeirense”, observa que “em poucas freguesias, ainda se mantém uma prática muito antiga, denominada de a ‘Pensação do Menino’, onde intervêm duas ou mais crianças como personagens - o anjo e a pensante ou vários anjos, um dos quais denominado de Anunciador. Depois da Missa do Galo, representavam-se, através da entoação de uma longa composição em verso, os cuidados dedicados ao Menino Jesus após o parto”.

“A Pensação do Menino foi proibida pelo bispo D. Manuel Agostinho Barreto (1835-1911), considerando-a indigna para a Virgem. Contudo, sobreviveu em poucas localidades, como, por exemplo, na freguesia da Boaventura, na costa norte da ilha”, acrescenta.