É sobretudo nesta quadra que,teimosamente, as minhas memórias me fazem voltar aos meus tempos de criança e adolescência.Volto ao tempo em que o Natal era,realmente,a Festa.Tudo era preparado com grande azáfama e alegria,desde os arranjos e limpeza das casas,até à confecção das iguarias da época,sem descurar a “limpeza”da alma.Os cheiros da cal e da tinta fresca misturavam-se com o cheirinho das broas e do pão acabado de cozer;..Mesmo o aroma a laranjas,,que só apareciam em casa por essa altura,tem sabor a esses Natais longínquos.Algumas eram religiosamente colocadas na lapinha,junto ao Menino Jesus, e de lá só saíam quando nós,sorrateiramente,as íamos surripiar.
Com que alegria saíamos de casa,de lanterna na mão,porque luz eléctrica só havia na estrada principal,para participarmos nas missas do parto!As conversas,as histórias contada pelos mais velhos eram nossas companheiras nos caminhos e veredas percorridas...Na igreja pequenina,onde não havia bancos,não cabia mais nem um alfinete. Acotovelávamo-nos uns aos outros,mas nunca ouvi ninguém se queixar.Os cânticos de Natal enchiam o templo e voltávamos para casa de coração cheio,até o dia seguinte...
Hoje,tal como outrora,vou à missa do parto.Já nada é como quando eu era pequenina.Há pouco entusiasmo,pouca alegria.Os caminhos estão cheios de luz,mas ninguém anda a pé.Estão desertos,como desertos estão também os corações de muitos de nós.
Na véspera de festa,o tempo passava mais devagar.Demorava tanto a chegar a noite!E perguntava à minha mãe,vezes sem conta:”mãe já posso pôr o sapatinho no lar?”Naquele lar,onde havia alguma cinza,mas onde o Menino Jesus iria passar.Nunca exigi nada,mas pedia secretamente a jesus,que não deixasse vazio o meu sapatinho.E nunca o deixou sem nada.Hoje eu sei que tendo tão pouco,eu tinha tanto!
O dia de Festa,era,realmente dia de festa.A festa da família,no sentido lato do termo.Todos nos juntávamos em casa dos avós.Os filhos,os tios,os primos,que grande e boa confusão...Quase todos os tios já partiram e os primos já nem falam uns com os outros.
Faço questão que na minha casa,não se esqueça as velhinhas tradições, e ainda que
agora não sejam “moda”,um dia serão uma doce lembrança.
O consumismo desenfreado instalou-se e a futilidade passou a ter lugar de honra no Natal.
A minha saudade não é por acaso.
Oxalá o Natal volte a ser A Festa.
Boas Festas.
Madalena Castro