Foi inaugurado esta semana o Centro de Ciências Oceânicas de Mindelo (‘OSCM – Ocean Science Centre Mindelo’), na Ilha de São Vicente em Cabo Verde. Com uma área de construção de cerca de 1700 m2, o Centro foi configurado para multiusos onde se podem operar equipamentos científicos de grandes dimensões tais como robôs submarinos (ex. ‘ROVs’; ‘gliders’; etc.) e boias oceanográficas, e onde estão disponíveis laboratórios de eletrónica, e de mecânica, bem como laboratórios de bioquímica, gabinetes, sala de conferência, cozinha e sala de convívio. Arquitetonicamente atrativo, inspirado na anatomia da lagosta, o edifício está pensado para ser autossustentável do ponto de vista energético (painéis solares) e de baixa manutenção (por exemplo, as paredes interiores e exteriores não estão pintadas, a luz natural cria um bom ambiente de trabalho, o arrefecimento é efetuado através de um ‘canal-de-vento’ no telhado, a agua da chuva é armazenada em cisternas e reutilizada para a rega dos jardins).

O investimento de cerca de 2.9 milhões de euros foi maioritariamente alemão, sendo o ‘GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research’, a instituição residente que detém a cogestão do espaço. A presença alemã está também visível no exterior do edifício com contentores cheios de equipamento e/ou com o navio oceanográfico ‘Maria S. Miriam’ atracado no Porto de Mindelo, em pano de fundo. O centro aloja não só um observatório oceanográfico constituído por uma boia fundeada a norte de São Vicente, medindo variáveis oceanográficas na coluna de agua, bem como por uma estação de monitorização do ar, a medir vários parâmetros (incluindo poluentes), numa localização junto ao Mar. Cabo Verde é desta forma uma nação com condições para ter uma estação de referência da ‘WMO – World Meteorological Organization’, bem como candidato ao consórcio internacional ‘POGO - Partnership for Observation of the Global Oceans’, dada a sua capacidade para operar e para manter sistemas de monitorização permanente no mar e na atmosfera.

Durante o evento dei comigo a pensar (novamente!) porque é que a Madeira ainda não se comprometeu com o desenvolvimento da investigação meteorológica e oceanográfica? Julgo que a resposta tem várias dimensões, será por falta de especialistas nestas áreas a operar na Região? Será porque as infraestruturas dedicadas à investigação marinha e atmosférica na região são ‘castelos’ independentes, desprovidos de uma estratégia pensada para promover o desenvolvimento regional, normalmente focados na promoção de áreas temáticas restritas (e.g. pescas, cetáceos, aquacultura)? Será devido a uma falta de visão estratégica integrada ou simplesmente uma falta de investimento?

Numa era em que a PLOCAN ostenta nas Canárias uma forte infraestrutura multifuncional para estimular o desenvolvimento de projetos tecnológicos ligados ao mar, onde os Açores detêm uma impressionante expressão internacional na produção de conhecimento do mar profundo, qual será a nossa originalidade? O que irá diferenciar–nos no futuro da Economia Azul, na Região da Macaronésia?