Juvenal da Silva Caldeira Decorria o peditório, eu alheio mas não indiferente à situação, ainda tentando organizar as minhas ideias ainda turvas pela cinza e pelo fumo que felizmente não vi nem senti o cheiro. Limitei-me a ouvir o sermão daquelas quem os anos e as vivências lhes proporcionavam uma clareza de ideias.

Dona Quitéria fora criada de servir em casa de senhora caridosa, falando quase sussurrando: Coitado de quem perde o que tem, que terá o mesmo ou menos que aquele que finge que perdeu o que não tinha. Muito se pedem para os pobres e por vezes as dádivas vão para as mãos mais cheias que as que dão. Só espero que o que é melhor não se perca no percurso.

Dona Maria , cunhada de padre e tia de freiras lá vai dando sua opinião:_Onde andou o Bispo? Não veio confortar seu rebanho? Quem pode ajudar é a igreja. Bem que pregam a caridade esses avarentos....Quantas casas tem a igreja espalhadas pela ilha? puseram ao dispor dos desalojados? Tanta casa tanto salão. Deus do céu vem cá baixo, para ver o que aqui vai....

Por fim Dona Balbina a vendedora ambulante , senhora de muitos saberes quis dar sua sentença: A meu ver quem devia suprir as necessidades imediatas seria o governo e as câmaras. Bastava menos umas almoçaradas e compravam mil escovas de dentes. Mais rigor nos remendos dos degraus e varadins de uma qualquer vereda esquecida e sobrava dinheiro para mil pastas de dentes. Menos umas viagens, festas, eventos inúteis ou feiras de inutilidades. Tudo isso em todas as câmeras tudo bem articulado dava e sobrava sem apelar à caridade popular.

Saí daquele espaço mudo e calado, logo eu que costumo meter o bedelho em tudo. Perante o sermão dado só restava refletir. Não só sobre o sermão acabado de ouvir, mas também sobre a capacidade desde nobre povo em ser solidário, como nas causas das coisas e no camuflar ou não das raízes dos problemas.