
As lambecas do Porto Santo já não sabem à adolescência, são mais modernas e já não têm aqueles pedaços de gelo pelo meio, nem as há naqueles cones minúsculos a 1$00. Mas estão no mesmo sítio e até se tornaram ponto de interesse turístico e político. As arruadas na Vila Baleira passam sempre por ali e os políticos deixam-se fotografar na janela dos gelados. Dá tempo de antena, mesmo que se esteja de dieta e o açúcar na lista de proibições do médico.
Passeio programado e artificial para a maioria dos políticos, mas não para Marcelo. Para o presidente, ainda comentador e indisciplinado, é natural, a lambeca lembra férias antigas e é natural. Tal como os abraços e conversas sobre doenças e pensões que tardam a chegar, os filhos que emigraram e a selecção que só consegue empatar mas lá vai avançando em França. Ouve, fala, dá conselhos e esquece-se que é o presidente. Melhor, é o presidente que os portugueses queriam.
É certo que a comparação com Cavaco é impossível, tão grande é a simpatia de um e a antipatia construída pelo outro, mas estes meses de presidente Marcelo já deixaram claro que nada será como dantes.
O presidente ri, brinca, fala, respira como as pessoas, mas também intervém, faz política, comenta – até deu uma flash-interview num jogo de futebol – e rouba protagonismo. Marcelo não é a figura de cera que foi Cavaco, nem tem a calma inteligente de Sampaio. É mais uma mistura deste último com Soares, com um toque pessoal de humor e muita prática televisiva.
Nos dias em que por cá andou, roubou todas as cenas, mesmo as mais pequenas e nem por isso criou antipatias. Mandou recados, para Lisboa e para a cena política regional e prometeu voltar, para visitar as Selvagens. E até nisso foi diferente e genuíno. Em vez de alinhar pelo discurso ridículo da 'soberania', assumiu que quer visitar as ilhas porque... é um sonho antigo e agora, como é presidente, pode fazê-lo. Um passeio, mais nada.
Até quando foi confrontado com uma cena de mau gosto, com uma bandeira que simboliza tortura, execuções e barbárie, conseguiu passar ileso, sem se manchar.
Não votei em Marcelo, mas este presidente-vedeta está a marcar pontos.