Depois das últimas quedas nas bolsas internacionais pela saída do Reino Unido da União Europeia e pelos problemas de solvência da banca italiana, parece que os bons indicadores vindos do outro lado do atlântico foram suficientes para anular os receios dos investidores. As boas noticias vieram dos Estados Unidos, que está com a sua economia a criar mais emprego do que era previsto e continua a crescer através do consumo interno. Até a China começa a mostrar sinais mais positivos, com crescimentos trimestrais a tornar possível o objetivo de 6,7% de crescimento anual.
Mas isso muda alguma coisa na Europa? Claro que não! A Europa continua com imensa dificuldade em sair da crise e o Banco Central Europeu (BCE) continua a efetuar compras massivas de dívida Italiana, Espanhola e Portuguesa. Este programa de compras retira um pouco da pressão sobre a dívida a que estes países estão sujeitos, mas não resolve os problemas. A borbulha de dívida soberana continua a crescer com a ajuda do banco central, e quando rebentar irá causar problemas ainda mais graves que os causados em 2008.
A fórmula utilizada pelo BCE, de reduzir a zero as taxas de referencia, foi a mesma formula utilizada pelos Estados Unidos em 2008, com a diferença que nos Estados Unidos foi possível limpar rapidamente o sector financeiro com uma injeção de milhares de milhões do dólares, e aqui na Europa, tantos anos depois do inicio da crise financeira, ainda estamos a tentar encontrar a ponta de um enorme emaranhado de problemas. Tendo em conta a situação recente do sector financeiro Italiano, Espanhol e Português, mesmo depois de tanta limpeza aos ativos dos bancos, depois da criação de tantos bancos maus e de tantos outros veículos para limpar os balanços da banca, alguns bancos europeus ainda parecem estar atolados em ativos tóxicos. Para além do insucesso do BCE na limpeza dos balanços dos bancos, o efeito da taxa de juro de referencia em níveis muito baixos também não está a ter o mesmo efeito que nos Estados Unidos. O dinheiro está barato, mas para poucos. Aliás, os custos de financiamento têm vindo a aumentar e isso representa um enorme entrave ao reflorescimento da economia europeia.
Mas o BCE é paciente e parece continuar empenhado em reduzir o custo de financiamento na economia real. Por isso, para além das compras de dívida pública, também já começou a comprar dívida privada num programa mais ambicioso que pretende que as suas medidas tenham um efeito mais evidente na economia real. Mas parece-me que também este novo programa não irá ter o efeito desejado, porque o principal problema não são os custos do financiamento no sector privado, mas sim o desequilíbrio entre os países importadores e os exportadores dentro da Europa. O problema de sobre-endividamento vai persistir enquanto os países do sul forem muito mais importadores que exportadores e enquanto os países que podiam fazer de alavanca para os mais fracos, como a Alemanha, continuarem a ser muito mais exportadores do que importadores.
Luís Pedro Branco