Depois da aluvião de 1803 - talvez a maior calamidade que assolou o Funchal desde a sua fundação - a cidade foi objecto de uma notável obra de engenharia e desenho urbano, concebida por uma equipa do Real Corpo dos Engenheiros liderada pelo Brigadeiro Oudinot. Foi esta equipa que concebeu as sólidas muralhas de cantaria basáltica que, até hoje, encanaram as ribeiras da baixa da cidade protegendo-a das aluviões. Não se pense, todavia, que apesar do trauma provocado pelo desastre e da urgência com que se reclamava remédio para o mesmo a solução surgiu do dia para noite. Chegou a ser desenhado um novo Funchal numa área elevada, a salvo dos leitos de cheia das ribeiras, entre Santa Catarina e o Ribeiro Seco - um projecto concebido na tradição iluminístico-pombalina da chamada «escola portuguesa de urbanismo», onde estes engenheiros militares pontificavam. A proposta, inicialmente encarada como viável, acabou por ser abandonada, tendo-se optado pelo reforço das muralhas de encanamento das ribeiras. Desastres desta natureza constituem, por vezes, uma oportunidade para que as cidades, depois de repensado o seu desenho urbano, renasçam das cinzas. Foi o que aconteceu com Londres após o grande incêndio de 1666; Lisboa após o terramoto de 1755; ou a capital madeirense depois da aluvião de 1803. Não foi, prém, o que aconteceu depois da aluvião de Fevereiro de 2010, com as obras da frente marítima, nem o que está a acontecer, hoje, com as ribeiras do Funchal. Em nome da urgência de apresentar obra feita, parece não ter havido tempo para repensar fosse o que fosse e confundiu-se um complexo problema de desenho urbano, numa cidade com quase seis séculos de história, com um problema de engenharia marítima e hidráulica. O projecto deveria ter resultado do trabalho de uma equipa pluridisciplinar envolvendo várias especialidades - arquitectura, paisagismo, história, arqueologia e as diversas engenharias que necessariamente acompanham uma intervenção urbana. Infelizmente, resultou de um ajuste directo a uma equipa onde as engenharias parecem ter tido a primazia. Os resultados estão à vista: o troço nascente da fachada atlântica da cidade, com os seus tetrápodes, faz recordar o porto industrial de Sines, e a avenida do Mar, passeio marítimo arborizado e panorâmico que corria ao longo da praia, tal como acontece em tantas estâncias turísticas europeias, perdeu irremediavelmente todo o sentido; as ribeiras, com as antigas pontes e o manto de buganvílias que as cobriam, estão a transformar-se em condutas de água cuja desastrosa imagem está já à vista frente ao Mercado dos Lavradores. Graças aos protestos de um grupo de cidadãos, a quem o Governo Regional deu ouvidos, tenciona-se agora salvar uma das pontes da ribeira de Santa Luzia. Mas que sentido terá recuperar um elemento que não é legível senão como parte de um todo que incluía as antigas muralhas em cantaria, parapeitos, guardas e a vegetação que espontaneamente ali vicejava? Creio que pouco. Talvez ainda estejamos a tempo de salvar, não apenas uma ponte, mas todo um conjunto que já faz parte da imagem do Funchal.

Rui Campos Matos