A síndrome Burnout é um conjunto de sintomas associado a um distúrbio psíquico muito ligado à prática de certas profissões mais competitivas. É uma situação de ansiedade que, muitas vezes, leva à depressão e se traduz em esgotamento psíquico e sintomas de cansaço físico.

Burnout significa, do inglês, “queimar por completo”, numa tradução de esgotamento profissional caracterizado por, entre outras causas, uma dedicação exagerada ao trabalho, voluntária por definição.

É mais frequente em certas profissões e em indivíduos com personalidades propensas a tal.

Certamente que todos conhecemos alguém que deseja ser sempre o “melhor’”, cuja dedicação ao trabalho é inusual e uma auto-estima que deriva em muito do reconhecimento desse empenho, mais do que outro qualquer. Todos conhecemos igualmente alguém que se enquadra no seu exato oposto, o desleixo laboral, mas isso não é o que analisaremos aqui hoje.

O distúrbio começa quando o empenho assume uma forma obsessiva e compulsiva. Quando desagrega o ambiente familiar, quando cria tensão no próprio local de trabalho e quando começa a afetar a clarividência das decisões que se tomam. Os afetados perdem interesse por outros aspetos da sua vida, seja social, familiar ou lúdica.

O distúrbio é muito assimétrico na sua incidência. Surge mais em certas forças de segurança, em profissionais de saúde, trabalhadores bancários e frequentemente em investigadores. Depois, também em certos professores, gestores e aqueles que lidam com as tecnologias de informação, mas é importante salientar que qualquer profissão pode estar propensa ao Burnout.

Saliento que este empenho excessivo nem sempre é sinónimo de trabalho profícuo. Há muita dedicação mas não necessariamente pontualidade ou entrosamento com as chefias e colegas. Está particularmente estudado o problema entre médicos, enfermeiros e professores, sendo a incidência maior nos médicos, especialmente entre os médicos hospitalares e os mais novos, acabados de sair das universidades e mestrados sujeitos “numerus clausus” limitativos. Apesar do empenho ser genuíno, a qualidade assistencial pode degradar-se com o tempo, ocorrendo até casos negligentes por abstração e cansaço. A Ordem dos Médicos portuguesa estima que mais de 25% dos profissionais portugueses estão nesta situação e lançou este ano uma grande campanha para avaliar a real dimensão do problema. Idêntica preocupação manifestou a OMS num dos seus relatórios recentes.

Se há profissões em que a regulamentação auto limita o problema desses trabalhadores, como sejam os pilotos de linha aérea ou os controladores de tráfego aéreo, noutras não.

Ao imediatismo (fazer tudo na hora), acresce o isolacionismo, a negação da conflitualidade existente ou pontual, bem como uma postura de anti socialização, a fuga a compromissos, mesmo que não dependam só do próprio. O quadro completa-se com a despersonalização e depressão profunda, podendo mesmo chegar, em alguns casos raros, ao suicídio, como infelizmente pude constatar com colegas de profissão.

Resta saber como lidar com o problema, numa sociedade cada vez mais competitiva e impessoal. O primeiro passo passa pela sensibiliza pública. A OMS alerta também para a importância do diálogo entre colegas de trabalho, o papel dos médicos de empresa, para relevar regras de trabalho salutares e dispor de apoio psicológico e psiquiátrico adequado.

Mário Pereira