Os mais jovens e qualificados votaram maioritariamente pela manutenção no Reino Unido Confesso que adormeci na quinta-feira descansado com as primeiras sondagens do referendo no Reino Unido. Os resultados pareciam confirmar que a saída do Reino Unido da União Europeia não era mais do que uma manobra política arriscada, um susto. Acordei com uma mensagem do estrangeiro a perguntar se já tinha visto os resultados. Não fiquei em estado de choque, mas quase. Precisei de dois cafés para poder começar a perceber que o impensável tinha acontecido. E não foram só as consequências imediatas com dois anos de trabalho com a Universidade de College de Londres (UCL) deitados fora pela impossibilidade de darmos continuidade a um projeto ambicioso de criar um centro de excelência em design para alterações globais na Madeira. Já li que esta votação foi uma expressão de coragem do povo do Reino Unido. Parece-me um disparate. Não existe coragem nesta decisão, existe sim muita ignorância, medo e nostalgia. Este referendo nasceu de uma jogada política irresponsável, alimentou-se da ignorância e da falta de visão de futuro para a Europa e terminou num resultado subjugado pelo populismo xenófobo. Tal como diz A. A. Gill num brilhante artigo do Sunday Times: “O sonho do Brexit não é o Reino Unido conseguir um futuro novo, brilhante e enérgico, é o desejo de um regresso arrependido ao passado voltado para dentro”. Não são os súbditos de Salazar, mas o sentimento de “orgulhosamente sós” é o mesmo, “nenhum artista como Turner, nenhum escritor como Shakespeare, nenhum herói como Nelson, nenhum político como Churchill, nenhum carro como o Rolls-Royce”. Tal como conclui A. A. Gill, “nesta fantasia do Brexit o melhor que podemos esperar é expulsar os estrangeiros que trabalham horas a fio e dedicarmo-nos a ser os curadores do nosso passado nesta ilha que geme de autojubilação”. Mas especulações à parte, a análise dos resultados demonstra duas coisas claras. Os mais jovens e qualificados votaram maioritariamente pela manutenção no Reino Unido: City de Londres, Oxford, Cambridge e Edimburgo acima de 70%, Cardiff, Manchester, Aberdeen, Bristol, Westminster e muitas outras cidades e regiões mais cosmopolitas acima de 60%. Os jovens dos 18 aos 24 anos acima de 73% pela manutenção, dos 25 aos 34 anos acima de 60%, ganhando o Brexit a partir da faixa etária dos 45, chegando a 60% nas pessoas acima dos 65 anos. Mais do que a classe social ou o rendimento foram a qualificação e a idade que definiram o voto pela saída. O Brexit não foi (apenas) uma revolta contra a austeridade (no caso do Reino Unido até autoimposta). O Brexit não foi (apenas) uma revolta contra os migrantes e a livre circulação de pessoas. O Brexit não foi uma reação à burocracia e ao controlo de Bruxelas. O Brexit foi acima de tudo uma reação dos “baby boomers” que nasceram durante a explosão demográfica após a segunda guerra mundial e que reagem à perda de privilégios e abundância em que prosperaram. O Brexit é uma expressão clara do conflito geracional em que vive esta Europa envelhecida e exposta a uma globalização cada vez mais feroz. Os nativos das gerações X e Y (menos de 33 anos e 34 a 48 anos) cresceram numa Europa de livre circulação de pessoas e bens. A geração Erasmus sabe que o mundo mudou e que não será possível regressar ao “orgulhosamente sós”. Por isso é que todos os meus colegas académicos do Reino Unido estão em choque. Eles sabem que o Reino Unido irá perder muito com as barreiras, principalmente à circulação do principal ativo do século XXI – o talento. E o resto da União Europeia perde sete das melhores dez Universidades Europeias (Oxford, Cambridge, Imperial College, UCL, LSE, U. Edinburgh e Kings College). Num mundo em que a competição por talento e inovação é cada vez maior (em particular dos países emergentes), perder as nossas principais instituições é desastroso. Tal como disse ao “Science Business” os que pensam que isto significa mais oportunidades para os que ficam estão enganados. A competição em ciência, tecnologia e inovação é global e perder o Reino Unido significa que todos ficamos menos competitivos. Para Portugal, mais do que a turbulência que o Brexit vai provocar, fica uma União Europeia com um centro de gravidade cada vez mais virado para o centro / este. Menos Atlântica, menos crítica, mais bipolarizada entre a Alemanha e a França. Não estou preocupado com as consequências imediatas para Portugal. A transição será mais lenta do que até seria desejável, podemos inclusivamente beneficiar de alguma complacência perante questões mais importantes e urgentes. Mas a prazo ficamos todos mais pobres numa Europa sem o Reino Unido. Portugal fica mais periférico embora, quem sabe, com um valor geoestratégico acrescido. Mas isso, tal como tudo o resto, implicava como dizia o Rigo gente como ele que pense em calhaus rolantes em vez de tetrápodes. PS: Deixo algumas sugestões de Verão. Três discos: “Are You Serious” de Andrew Bird (um dos melhores canto-escritores dos nossos tempos), “Stranger to Stranger” de Paul Simon (ao nível de Graceland) e “Moon Shaped Pool” dos RadioHead (muito bom regresso). Três livros: “Positive computing: technology for wellbeing and human potential” de Calvo & Peters (livro importante sobre o futuro da tecnologia), “The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution” de Richard Dawkins (um clássico belíssimo) e finalmente “A History of the Future in 100 Objects” de Adrian Hon (sobre história do futuro). Quatro filmes: “Bone Tomahawk” (para estômagos fortes), “Trumbo” (sobre liberdade de expressão), “Room” (perturbante) e “The Big Short” (mais curto e simples do que lições de economia). *Presidente do Madeira-ITI Nuno Nunes, Professor universitário
Os mais jovens e qualificados votaram maioritariamente pela manutenção no Reino Unido
Confesso que adormeci na quinta-feira descansado com as primeiras sondagens do referendo no Reino Unido. Os resultados pareciam confirmar que a saída do Reino Unido da União Europeia não era mais do que uma manobra política arriscada, um susto. Acordei com uma mensagem do estrangeiro a perguntar se já tinha visto os resultados. Não fiquei em estado de choque, mas quase. Precisei de dois cafés para poder começar a perceber que o impensável tinha acontecido. E não foram só as consequências imediatas com dois anos de trabalho com a Universidade de College de Londres (UCL) deitados fora pela impossibilidade de darmos continuidade a um projeto ambicioso de criar um centro de excelência em design para alterações globais na Madeira. Já li que esta votação foi uma expressão de coragem do povo do Reino Unido. Parece-me um disparate. Não existe coragem nesta decisão, existe sim muita ignorância, medo e nostalgia. Este referendo nasceu de uma jogada política irresponsável, alimentou-se da ignorância e da falta de visão de futuro para a Europa e terminou num resultado subjugado pelo populismo xenófobo. Tal como diz A. A. Gill num brilhante artigo do Sunday Times: “O sonho do Brexit não é o Reino Unido conseguir um futuro novo, brilhante e enérgico, é o desejo de um regresso arrependido ao passado voltado para dentro”. Não são os súbditos de Salazar, mas o sentimento de “orgulhosamente sós” é o mesmo, “nenhum artista como Turner, nenhum escritor como Shakespeare, nenhum herói como Nelson, nenhum político como Churchill, nenhum carro como o Rolls-Royce”. Tal como conclui A. A. Gill, “nesta fantasia do Brexit o melhor que podemos esperar é expulsar os estrangeiros que trabalham horas a fio e dedicarmo-nos a ser os curadores do nosso passado nesta ilha que geme de autojubilação”. Mas especulações à parte, a análise dos resultados demonstra duas coisas claras. Os mais jovens e qualificados votaram maioritariamente pela manutenção no Reino Unido: City de Londres, Oxford, Cambridge e Edimburgo acima de 70%, Cardiff, Manchester, Aberdeen, Bristol, Westminster e muitas outras cidades e regiões mais cosmopolitas acima de 60%. Os jovens dos 18 aos 24 anos acima de 73% pela manutenção, dos 25 aos 34 anos acima de 60%, ganhando o Brexit a partir da faixa etária dos 45, chegando a 60% nas pessoas acima dos 65 anos. Mais do que a classe social ou o rendimento foram a qualificação e a idade que definiram o voto pela saída. O Brexit não foi (apenas) uma revolta contra a austeridade (no caso do Reino Unido até autoimposta). O Brexit não foi (apenas) uma revolta contra os migrantes e a livre circulação de pessoas. O Brexit não foi uma reação à burocracia e ao controlo de Bruxelas. O Brexit foi acima de tudo uma reação dos “baby boomers” que nasceram durante a explosão demográfica após a segunda guerra mundial e que reagem à perda de privilégios e abundância em que prosperaram. O Brexit é uma expressão clara do conflito geracional em que vive esta Europa envelhecida e exposta a uma globalização cada vez mais feroz. Os nativos das gerações X e Y (menos de 33 anos e 34 a 48 anos) cresceram numa Europa de livre circulação de pessoas e bens. A geração Erasmus sabe que o mundo mudou e que não será possível regressar ao “orgulhosamente sós”. Por isso é que todos os meus colegas académicos do Reino Unido estão em choque. Eles sabem que o Reino Unido irá perder muito com as barreiras, principalmente à circulação do principal ativo do século XXI – o talento. E o resto da União Europeia perde sete das melhores dez Universidades Europeias (Oxford, Cambridge, Imperial College, UCL, LSE, U. Edinburgh e Kings College). Num mundo em que a competição por talento e inovação é cada vez maior (em particular dos países emergentes), perder as nossas principais instituições é desastroso. Tal como disse ao “Science Business” os que pensam que isto significa mais oportunidades para os que ficam estão enganados. A competição em ciência, tecnologia e inovação é global e perder o Reino Unido significa que todos ficamos menos competitivos. Para Portugal, mais do que a turbulência que o Brexit vai provocar, fica uma União Europeia com um centro de gravidade cada vez mais virado para o centro / este. Menos Atlântica, menos crítica, mais bipolarizada entre a Alemanha e a França. Não estou preocupado com as consequências imediatas para Portugal. A transição será mais lenta do que até seria desejável, podemos inclusivamente beneficiar de alguma complacência perante questões mais importantes e urgentes. Mas a prazo ficamos todos mais pobres numa Europa sem o Reino Unido. Portugal fica mais periférico embora, quem sabe, com um valor geoestratégico acrescido. Mas isso, tal como tudo o resto, implicava como dizia o Rigo gente como ele que pense em calhaus rolantes em vez de tetrápodes. PS: Deixo algumas sugestões de Verão. Três discos: “Are You Serious” de Andrew Bird (um dos melhores canto-escritores dos nossos tempos), “Stranger to Stranger” de Paul Simon (ao nível de Graceland) e “Moon Shaped Pool” dos RadioHead (muito bom regresso). Três livros: “Positive computing: technology for wellbeing and human potential” de Calvo & Peters (livro importante sobre o futuro da tecnologia), “The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution” de Richard Dawkins (um clássico belíssimo) e finalmente “A History of the Future in 100 Objects” de Adrian Hon (sobre história do futuro). Quatro filmes: “Bone Tomahawk” (para estômagos fortes), “Trumbo” (sobre liberdade de expressão), “Room” (perturbante) e “The Big Short” (mais curto e simples do que lições de economia). *Presidente do Madeira-ITI
Nuno Nunes, Professor universitário