Um jovem enfermeiro que foi para Londres ganhar 3.000 euros, mas é pago em libras, viu o seu vencimento amputado de um fatia muito substancial, na madrugada de sexta-feira. Uma noite em que adormecemos com o Reino Unido na União Europeia, numa previsão de votos apertada e acordámos com a maior bomba comunitária das últimas décadas. O jovem enfermeiro, que nem deve ter dormido, ficou em pânico e é para ele que deve ir toda a solidariedade.

O Reino Unido sai, depois de um dos maiores exemplos de irresponsabilidade política de que há memória. Estúpido é a classificação mais simpática para quem teve a ideia de avançar (foi o Cameron!) com um referendo destes. Quase tão irresponsável como quem os inventou.

A tão falada e badalada democracia directa é um logro e uma brincadeira que, quase sempre, sai cara. Desde logo porque não conta com as campanhas de 'tasca' e a recusa dos eleitores em raciocinar e pensar pelas próprias cabeças. Infelizmente é assim, mesmo que não seja politicamente correcto dizer. Podemos brincar aos orçamentos participativos, fingir que as pessoas decidem sobre tapar o buraco da rua, mas quando a decisão é mais complexa, o risco é exponencialmente maior.

Tudo porque os políticos mentem. E mentem com os dentes todos que têm na boca e muito mais quando se trata de posições extremadas. No caso britânico, a campanha 'in' e 'out' foi vergonhosa, mas os radicais de extrema-direita atingiram níveis de burla impensáveis. Chegaram a afirmar que o Reino Unido dava 350 milhões de libras, por semana, para a UE. E muita gente acreditou. Um dia depois do referendo, estavam a reconhecer a mentira. Mas ganharam, porque quem vota tantou acredita nisto como nos 'posts' do facebook a dizer que a anona cura o cancro ou que um deputado ganha um milhão por dia.

Certo é que votaram, ganhou a saída e está o caldo entornado. Para os britânicos e para os outros todos. Ganhou a direita radical e é curioso que sejam partidos de esquerda – alguns também radicais – a tentar encontrar justificações para este resultado e até baterem palmas a uma loucura que pode ter consequências muito graves para Portugal. O turismo é o maior produto de exportação e o Reino Unido um dos maiores mercados.

O Reino Unido sai mas deixa de o ser. Está mais do que partido, dividido entre ingleses e galeses, de um lado e escoceses e irlandeses, do outro. Entre jovens que queriam ficar na UE e velhos que votaram pela saída. Separados entre o eleitorado urbano que ainda está atordoado pela derrota e eleitores rurais que decidiram fechar fronteiras. Mais difícil era impossível.

E tudo porque alguém decidiu fazer um referendo na pior altura e deu margem a que um partido radical – uma dessas novas formações, de esquerda e direita, muito em voga e que têm conduzido vários países a impasses políticos, veja-se a Espanha – espalhasse o seu discurso xenófobo e mentiroso. Vamos ver até onde vai o tsunami.

P.S. - Portugal votou 'não' à saída do Euro, com um golo de Quaresma, o mal-amado. Depois de uma primeira fase medíocre, as coisas parecem melhorar.