Gil Canha Foi com um misto de pasmo e revolta que li neste matutino, a 21 do corrente mês, um pequeno texto referindo que a Câmara Municipal do Funchal iria iniciar as obras de alargamento da célebre ENTRADA 68, no Caminho do Trapiche, Santo António, e que constava dos Planos da Câmara - “há largos meses”. Há largos meses?! Estão a brincar! Esta justíssima obra já anda há anos para ser realizada (desde 2010), e é um verdadeiro escândalo e uma vergonha para a região ainda não estar feita. E explico porquê!
Na aluvião de 20 Fevereiro, as zonas mais atingidas foram as Zonas Altas do Concelho do Funchal e foram nestas zonas que morreu mais gente, nomeadamente no vale percorrido pelo Ribeiro do Trapiche (Barreira, Poço Morgado, Curral Velho e Laranjal). Só nesta pequena área faleceram 14 pessoas, deste modo, era moralmente justo que uma parte desses milhões de euros da Lei de Meios que vieram para a Madeira, fossem logo aplicados neste lugar e em todas as Zonas Altas da cidade, nomeadamente no alargamento substancial das margens dos ribeiros, demolição de moradias em zonas de risco, construção de novas moradias em locais mais seguros e construção de novos acessos, isto seria sim, ajudar as pessoas e injectar dinheiro na nossa economia, nomeadamente na revitalização das nossas pequenas empresas de construção civil.
Ora nada disto aconteceu! Pelo contrário, aldrabou-se as pessoas com pequenas obras de “correcção” de linhas de água (os ribeiros continuam a serpentear perigosamente entre quintais e habitações) meteram-se pessoas em apartamentos provisoriamente, e Viva o Velho! E o grosso da ajuda, e estamos a falar de milhões de euros, foram imediatamente desviados para obras de - Engenharia Pesada - na Ribeira Brava, Tabua e na parte baixa do Funchal, tudo para encher os bolsos às grandes empresas de Construção Civil e aos seus lacaios governamentais.
Isto é, os desgraçados que levaram com a maior força do diluvio em cima foram completamente esquecidos, nem tiveram direito a um acabamento mais digno da Cota 500, continuam com o caminho do Jamboto afunilado e os caminhos cheias de buracos, e muitos dos desalojados ainda andam ao Deus dará. Aliás, nem visitas de comiseração tiveram, pois as Zonas Altas foram banidas do mapa do “turismo” dos aluviões, era tudo encaminhado para o vale da Ribeira Brava!
Mas os falcões do lóbi do betão não dormem! Deram prioridade à milionária via rápida para o Estreito, preparam-se para gastar 7 milhões na foz da Ribeira da Madalena do Mar, vão emborcar mais uns milhões em túneis no norte da Ilha, e actualmente entraram nas Ribeiras do Centro da Cidade do Funchal com toda a parafernália da engenharia pesada, dando novamente milhões de euros à “tubaranagem” como quem dá alpista a pardais.
E os desgraçados que serviram de chamariz de sangue e lágrimas para atrair os milhões de euros da Lei de Meios vão vegetando lá por cima, entregues à sua sorte. E foi por estes motivos de moral e consciência que na altura que era vereador na CMF fiz os possíveis e impossíveis para avançar com o alargamento da ENTRADA 68, e as coisas até estavam bem encaminhadas, pois eram poucos metros de terreno. Afinal, ficaram a marinar estes anos todos… se calhar, porque o Prof. Paulo Cafôfo já se esqueceu que existem Zonas Altas.