O desafio está lançado. E a questão não poderá ser colocada de outra maneira, a não ser que todos nós tenhamos perdido a noção do bom senso e o sofrimento enorme que as grandes obras causaram a mais de 250 mil madeirenses.
Numa Madeira cuja economia estagnou, que mantém a liderança nacional da maior taxa de desempregados, que é incapaz de gerar receitas significativas e dispõe de escassos apoios comunitários, a opção do Dr. Albuquerque de concentrar a “parte de leão’” dos recursos financeiros dos próximos anos em obras rodoviárias, túneis, ribeiras, estradas, entre outras novas megalomanias, tem um significado que poucos ainda compreenderam as consequências que irão perdurar por muitos e muitos anos. Mais: o Governo Regional, este e o anterior, do mesmo PSD, revela-se incapaz de deitar mão a (todos) monopólios que estrangulam a nossa economia há 40 anos, ou seja, mantém na essência a política de transportes do passado, bem como o estado frágil da Saúde e da Educação, ao mesmo tempo que canaliza escassos recursos para estimular a economia e o emprego.
Quem pensava que Miguel Albuquerque mudaria a essência da forma de governar a Madeira e que acabaria com o paradigma ‘’jardinista’’ do “faz-se que alguém depois há de pagar”, desiluda-se!
Perdoem-me a imodéstia, mas creio que consigo imaginar hoje os pensamentos do Dr. Jardim, resvalado no seu sofá, na casa da Pena, quiçá na companhia de um charuto cubano e de um bom conhaque, a dizer para com os seus botões: ”Afinal eu tinha razão, afastaram-me, criticando-me pelas obras públicas, mas agora fazem o mesmo que eu sempre fiz. Muda-se o criador, fica a obra. Muda-se o líder, fica a mesma práxis.” Afastado e criticado todos os dias pelos ‘’Renovadinhos’’, advinha-se o sorriso subtil de Jardim.
Perante estas opções governativas, grande parte do PSD assiste adormecido e incrédulo. A sociedade madeirense encolhe os ombros. Para abanar a consciência geral, foi preciso Rui Barreto, líder parlamentar do CDS, vir alertar: “Eu não quero este caminho para a Madeira, não me revejo nestas opções políticas que trouxeram a Madeira à falência financeira, ao desemprego, ao drama social.”
Ao abanar a consciência colectiva, Rui Barreto abriu a “caixa de pandora” que, pelos vistos, é bem maior do que se imaginaria que fosse – porque o mesmo Rui Barreto que foi aplaudido pela coragem de ter recusado aprovar dois Orçamentos de Estado e da Troika que violentavam a Madeira e os madeirenses, veio agora a ser acusado de cobarde por alguns néscios da política e da governação.
Ao assumir um papel claro, uma ruptura com as velhas práticas que estão a custar-nos o presente e o futuro, e um rumo de governação bem diferente, mais consentâneo com a realidade económica e social da Madeira, Rui Barreto baralhou o Governo mas também toda a Oposição regional, que passou os últimos 20 anos a criticar a opção por obras públicas mas, por tudo o que já se ouviu dela, nos últimos dias, revela uma profunda incoerência política e uma total ausência de projecto e rumo político. Pelo que se percebeu, a Oposição e o PSD dão maior prioridade a qualquer obra pública e secundarizam a construção de um reclamado e urgente novo hospital, que permitiria mudar o panorama da saúde regional. Os Açores modernizaram a sua rede hospitalar e 15 distritos do continente têm agora hospitais modernos de grande dimensão e com custos de manutenção reduzidos.
O mal do imobilismo na política regional e na sociedade madeirenses não afecta só o PSD, mas também alguma oposição, mesmo dentro CDS, que não revela dimensão prospectiva e modernidade, grandes horizontes e aspirações colectivas.
Certamente, não será possível fazer-se tudo e ainda por cima ao mesmo tempo. Aceita-se, sem grandes controvérsias, que as obras iniciadas pelo anterior governo terão que ser acabadas. Mas a questão é outra. Serão estas obras mais urgentes que a substituição do decrépito Hospital dos Marmeleiros, onde as infiltrações conspurcadas infetam zonas ocupadas por doentes imundo-suprimidos, onde doentes idosos em enfermarias são expostos ao frio do inverno e ao bolor de um edifício com 100 anos que foi praticamente deixado ao abandono e sem manutenção? Serão estas obras rodoviárias mais importantes do que o apoio à criação de novas empresas, a um alívio fiscal e reforço de apoios financeiros que ajudem e promovam o aumento da salutar concorrência no mercado regional para que surjam novos postos de trabalho e se dê uma alternativa à emigração massiva de jovens madeirenses?
O CDS nacional renova-se a olhos vistos com Assunção Cristas. O partido tem vindo a aumentar publicamente, todos os dias, a sua credibilidade política. Os que integraram as anteriores direções do partido retiraram-se com exemplar elevação e declinaram protagonismos bacocos. O CDS Madeira tem que deixar de olhar para o passado e precisa assumir novos desafios, com outros protagonistas. Este é o tempo de uma nova geração que se revela competente e disposta a trabalhar e a correr riscos para concretizar ideias e projectos inovadores que tragam prosperidade e esperança a todos os madeirenses e não apenas a alguns. É o PSD e não o CDS Madeira que tem de ser confrontado com as suas incoerências e erros de governação. Quem no CDS assim não entender, terá que ser responsabilizado pela oportunidade perdida e, sobretudo, pelo favor que anda a prestar ao PSD e à sua “entourage”.
Mário Pereira