Impôs-se-me começar este artigo de opinião com esta interrogação: Santana e o concelho têm futuro?

Direi, se tudo continuar como anda, sem uma dinâmica de transformação, o futuro do concelho de Santana apresenta-se hipotecado e muito pouco risonho.

Mas dir-me-ão e o mesmo não se passa com outros concelhos? Certamente, sem tirar nem pôr. Mas essa situação não pode ser equivalente a que cruzemos os braços, pois como dizia o grande poeta sevilhano “o caminho faz-se caminhando”.

Nasci no concelho de Santana, mais concretamente no sítio da Banda do Sol, hoje em estado de completa desertificação.

Nos finais do mês de Abril, estive algum tempo em Santana. Triste já estava pela situação que me fez estar na Madeira e em Santana naquela altura - a perda irreparável da Lília Bernardes, uma grande MULHER, lutadora da Liberdade e companheira de vida de 16 anos.

Não deixei, contudo, de, mesmo nesse contexto, “olhar” uma vez mais para o meu concelho e concluir que Santana precisa de vida, de criar vivência social. A ideia que fica é a de que o concelho necessita de ser agarrado pelas entidades locais com ideias de transformação em diversas frentes, embora respeitando o que há de genuíno.

O concelho tem estado parado, não tem progredido. E é pena porque em meu entender tem potencialidades próprias. O que é preciso é identificá-las e articulá-las estrategicamente e sobre essa plataforma apontar um futuro, que seja capaz de romper com as tendências passadas.

Aliás, algumas vezes, quando ali íamos ou permanecíamos por algum tempo em casa dos meus familiares, a Lília e eu falávamos sobre isto.

E a Lília dizia: a este concelho falta criar espaço e vida social, primeiro, para a sua população e, depois, como forma de captação de turistas. E acrescento eu transformar pelo menos uma parte significativa do turismo de passagem que Santana tem, alimentado pelas casas típicas e pouco mais, num turismo de maior permanência e influência no seu território.

Santana é o 2º concelho da Região Autónoma com menos poder de compra por habitante. Apenas Porto Moniz lhe é inferior. Em valor, o poder de compra do concelho representava pouco mais de metade do nível de Portugal em 2011 (Portugal=100, Santana=53,89 e Funchal=133,28).

E como se poderá criar esse espaço, de forma a gerar vida social?

Primeiro, é preciso pensar o concelho, todo o concelho, e dotá-lo de um plano estratégico de longo prazo (10/20 anos). Dotar o concelho de um plano prospectivo, como gostam de dizer os economistas, elaborado por equipa técnica idónea.

Este plano a construir de forma democrática, dito de forma simples, ouvindo as pessoas, os agentes das actividades económicas, os agentes sociais e institucionais, tem de assentar nas especificidades do concelho, na qualidade das suas gentes (tendo em conta até a sua diferenciação por freguesia), na sua ruralidade, na sua gastronomia, e nas potencialidades de desenvolvimento que são elevadas na agricultura e no turismo. Mas, não só, pois a cultura e o artesanato também terão algo a dizer. Por exemplo na cultura, que fazer com um grande escritor, o Ferreira de Castro, que viveu alguns tempos em Santana nos anos 30 do século passado e que no seu livro, A Eternidade, que se desenrola todo ele na Madeira, fala de Santana?!

Um plano não pode ser desgarrado do seu enquadramento na Região e da ligação a outros concelhos, sobretudo os mais próximos, mas até ao do Funchal como no caso de Ferreira de Castro (por exemplo a rota do escritor). A complementaridade, a cooperação e a interligação entre certos aspectos concelhios são essenciais, não no papel mas na prática do dia-a-dia.

Um plano estratégico com efeitos a dois tempos é fundamental.

Primeiro para estancar a desertificação do concelho e depois através do desenvolvimento da sua economia iniciar a atracção de pessoas para nele se radicarem.

Outras medidas como o subsídio por nascimento serão bem-vindas, se forem eficazes, mas funcionarão apenas de paliativo. Só o desenvolvimento social e económico terá o efeito de fundo desejado.

Na base das ideias estratégicas que podem/devem enformar o plano prospectivo é possível avançar para o ordenamento territorial funcional.

Mas para sermos mais simples, claros e eficazes temos de definir o foco por onde começar.

Em todo o concelho tem de haver espaços-centro vivos, atractivos e mobilizadores da vida social, económica e cultural.

E o primeiro desses centros tem de se localizar na sede do concelho e, depois, então irradiar para as restantes freguesias, pelo que tem de ser bem sucedido.

Em Santana, sede de concelho, ainda não há esse espaço central, bem dimensionado e dinâmico.

Junto à Câmara onde se situam as casas típicas juntam-se pessoas da terra em certos eventos. Os turistas que passam em Santana visitam e muito esse local e as redondezas. Mas já nada o liga ao Parque Temático que fica a uns metros do edifício da Câmara e à zona da Igreja.

Tudo rodar apenas em torno da Câmara nunca se sairá da cepa torta. É um espaço acanhado, não ordenado e pouco convidativo, perdendo-se as sinergias da articulação com as restantes Zonas.

O perímetro desse espaço tem de ser muito alargado e ordenado territorialmente. E assim a primeira questão assenta na definição do perímetro e das respectivas infraestruturas que vão enformar o centro.

A definição do centro e do respectivo perímetro deve ter em atenção várias componentes e vários objectivos. Não se trata apenas de novos arruamentos, mas sobretudo de funcionalidades. Interessa pensar no que ali se vai instalar e como se vai instalar, de forma a que gere vida de sociedade.

A definição deste centro deve ter em conta e deve girar em volta do que deve ser o concelho no futuro.

Sem uma visão estratégica a prazo e bem alicerçada no que se pretende para o concelho em que este centro a dinamizar se encaixe, esse centro impulsionador não arranca de forma eficaz e com os impactes pretendidos e seria mais um desânimo para a sua população.

O falhanço do lançamento de um centro potencialmente dinamizador da vida social, económica e cultural constituiria um entrave com várias repercussões na recuperação do Concelho que toda a gente ambiciona pelo que como referi antes o caminho faz-se com os pés bem assentes ou talvez mais ajustado a esta circunstância com a cabeça cheia de ideias, devidamente concertadas acerca do que se pretende.

Haja construção de ideias, articulação, absorção das mesmas pela população e depois rapidez de execução. E Santana passará a ter vida e melhor nível de vida, onde há muita margem a recuperar em poder de compra para que o cidadão habitante de Santana possa caminhar no sentido da média do País.

João Abel de Freitas