São cerca de 10 milhões os que povoam o nosso Portugal. Ou seja caberíamos todos numa cidade como Londres e ainda sobrava espaço. Ou seja somos poucos. E no que concerne às coisas clubísticas somos ainda menos. O bolo dos adeptos é dividido pouco irmãmente, com o Benfica a levar a fatia de leão, Sporting e Porto a partilhar o restante, ficando as migalhas para quem apanhar. Isto tem um impacto para além do mero fervor. Tem impacto económico e financeiro, publicitário, de captação de adeptos e até do próprio crescimento dos clubes. Vemos, regra geral, estádios vazios e sem condições, mesmo em clubes que até fazem boas campanhas. E depois temos ainda que apanhar com a desconfiança inata e o sabor pela conspiração que tanto caracteriza o português. Se o Marítimo vencesse este jogo estava feito com o Sporting. Se perdesse estava feito com o Benfica. Depois é mala para aqui, mala para acolá, tudo regado por uma comunicação social que é capaz de se dirigir a um adepto equipado a rigor e pergunta se ele está de coração dividido pela equipa contrária! Ou, no meu caso, quando me abordam e perguntam, insistentemente diga-se, “qual é o meu clube de Lisboa”!
Não se trata de simplesmente gostar de um clube ou outro, trata-se de uma cultura enraizada de sobrelevar um e queimar o restante. E veja-se que isto é suportado por uma gritante ignorância daquilo que são os outros clubes, do que representam ou de quem os compõe, da pouca ou nenhuma cobertura mediática que lhes é oferecida, sob a capa de que só uns é que vendem. Admito que isto seja incompreensível para quem está do lado contrário, que é grande parte do país. Mas para quem, como eu, que apoia um clube que não é um dos “3 grandes”, este fado é terrível. Este futebol é também reflexo deste país, incapaz de se valorizar, de respeitar a diferença, de dar mérito ao adversário, de valorizar o confronto saudável e de promover o sentido de espectáculo, dirigido por pessoas que acham perfeitamente normal agendar finais nas condições exigidas por apenas um dos finalistas.
A propósito da eterna discussão de clubes e clubismos, mesmo sem aplicar a velha máxima de “se não os conseguires derrotar”, o mínimo que se pode exigir aos sócios e adeptos do Marítimo que também partilham o seu afecto com um dos tradicionais “maiores” do futebol português, é RESPEITO pela camisola e legado do Clube Sport Marítimo, especialmente nos jogos em nossa casa. No domingo um fulano, que até costuma ser maritimista em dias normais, aquando da festa do golo benfiquista veio me perguntar onde é que andavam os maritimistas? Eu respondi-lhe “sentados onde você está”. Mas se há mentalidades que não dão para mudar, há outras formas de apaziguar e criar condições de respeito. Como é possível obrigar os sócios e simpatizantes do Marítimo a mudar de lugar no estádio num determinado jogo? Como é possível reencaminhar as claques do Marítimo do seu lugar habitual para uma bancada onde o som não se propaga? Misturar os lugares cativos com os lugares para visitantes que comprem bilhete? Uma bancada “escola” que tinha tudo menos alunos? Continuar a permitir a entrada de pessoas com referências ao adversário para lugares anunciadamente reservados a adeptos do Marítimo? Para se dar ao respeito é preciso respeitar. Receber bem não é dar a cama para dormir no chão.
Resta-me dizer que a vitória não sofre contestação. O Marítimo foi fiel a si próprio. Jogou pouco e o que jogou foi fraco, não tirando qualquer partido da superioridade numérica que dispôs. Espero que, no mínimo, sejamos capazes de fechar a temporada com uma vitória e que a equipa faça muito melhor figura na final que falta disputar. Votos de recuperações rápidas ao nosso Maurício!
Luís Miguel Rosa