Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse como Presidente da Republica e, como objetivo primeiro do seu mandato, afirmou a necessidade de vencer a crise e reconstruir o país. “Temos de sair deste clima de crise em que sempre vivemos”, disse o novo PR perante o povo português. Face à grave crise financeira, económica, social e ética que o país atravessa, à natureza dos acontecimentos mais recentemente verificados, quer no país, quer no contexto europeu, e às fortes incertezas sobre a sua evolução, o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, na sua essência, não deixou de ser de oportuna esperança. Em particular o novo PR não deixou de afirmar que a crise não pode ser pretexto para a suspensão de três critérios que deverão orientar a construção do futuro: a justiça, a solidariedade e o bem comum. Pelo contrário, é em situações mais graves que estes critérios se tornam necessários. A história revela que a preterição de objetivos humanos e sociais, em benefício de outros de natureza instrumental, prejudica definitivamente a dimensão humana das políticas económica e financeira. O que está em causa, de modo crescentemente mais claro, são as fragilidades dos modelos de produção e de distribuição da riqueza e de conceção do trabalho que assentam na injustiça, que desvalorizam a dádiva social e que tolhem a inovação social. Uma das ideias fundamentais do 25 de Abril era devolver o poder às pessoas. Criar as condições para uma prosperidade real, a partir de baixo, mais certa do que as prosperidades débeis que, a troco de uma indispensável disciplina fiscal, não vencem o empobrecimento nem o desemprego ou a prioridade concedida ao capital financeiro à custa da fé no capital humano. Dito de outra forma e de uma maneira mais sucinta temos de referir que Portugal terá de passar de uma modernização promotora de exclusão a uma modernização promotora de inclusão. A lógica do mercado, por si só, “acentua as assimetrias”. Não podemos criar um novo modelo de modernidade a partir de projetos locais, e participações das comunidades, quer dizer, da sociedade civil. “Sem renunciar à eficiência económica global, sem quebrar a disciplina da despesa, a estabilidade económica e social”, devemos “atender às propriedades do desenvolvimento humano”. É a ação da sociedade civil que vai dar resposta a estas questões. Mas a sociedade civil não vive do ar. Precisa do teto protetor da democracia e da seiva nutritiva e da raiz cultural para as quais o tempo, longe de se desenvolver horizontalmente do passado para o presente e para o futuro é concebido como uma ascensão vertical e paralela de Deus e do Homem. Foi nisto que pensei no passado fim-de-semana ao acompanhar pela televisão o congresso do PSD e as intervenções em tudo contraditórias de Pedro Passos Coelho. A opinião pública portuguesa assistiu a um triste espetáculo de um homem que tinha transformado os últimos meses em “tempos de amargura e ressentimento, de revolta e indignação, de azia e crispação” e que passados 4 meses assumiu finalmente o seu estatuto de líder da oposição. Exigiram que se reinventasse mas até pela sua postura neste congresso apenas seria o que nunca foi. A sua coerência atingiu o limite da contradição ao se travestir de social-democrata. Quem acompanhou os seus discursos em Espinho não ficou surpreendido pois Passos Coelho foi ele mesmo e o slogan com que promoveu a sua moção – “Social-democracia, Sempre” – não passou de um embuste. Sempre conheci Passos Coelho como um neoliberal cuja visão do Estado não ia além do Estado-Mínimo com a defesa da concorrência como uma espécie de “seleção natural” dos mais aptos, um darwinismo social que ataca duramente a democracia, a intervenção estatal na economia e a criação de políticas sociais. Passos Coelho com essa sua postura pôs em causa a identidade ideológica do PSD em contraposição com a social-democracia de Francisco Sá Carneiro. Mais do que isso – Passos Coelho mostrou-se como um político sem ideias que se mostrará no futuro, num político sem influência. Dizia um velho ativista dos Estados Unidos: “a única função real do líder é produzir novos líderes, e não mais seguidores”. De facto, o exercício continuado do poder dá, sem dúvida, experiência, mas também vai desgastando uma das características mais necessárias para governar: a atenção aos outros e a capacidade de encaixe. E isso é o pior que pode ocorrer para governar: o líder não pode impacientar-se. Recordo, a este propósito, o discurso de Sá Carneiro no Cinema Vale Formoso, no Porto, no congresso do PPD/PSD quando perdendo uma votação, por coerência e determinação saiu da liderança do partido. Às vezes por esgotamento e outras circunstâncias supervenientes, chega o momento em que convém ceder o lugar. O ponto mais difícil é aquele em que o líder não é capaz de compreender e assumir que, para a instituição que serve, já é mais parte do problema do que da solução. Por isso e para isso é indispensável que Passos Coelho compreenda que um dos problemas da liderança forte é a tendência para anular qualquer outra liderança. A crise atual não se limita a um ou dois países, nem a um ou a outro sector: é uma crise ampla e que afeta todo o Ocidente. Em tempos como o que vivemos, é fundamental uma liderança forte, sólida e credível que defina o novo rumo e um novo tempo.

José A. Roque Martins