Sempre acreditei que o relacionamento entre instituições se deveria pautar, antes de mais, pela boa-fé. Era imperioso que, pelo menos, esta fosse a primeira natureza de quem deveria dar o exemplo. E o exemplo, como diz o povo, tem de vir de cima.

No entanto, a verdade é que a prática faz cair certezas e adágios, e não raras vezes nos conduz rapidamente daquilo que acreditávamos ser o bom senso instituído para a total ausência dele.

O processo em torno dos terrenos que são pertença do Município de Santa Cruz no Parque Empresarial da Cancela são um exemplo caricato de que os valores que consideramos intocáveis podem não só ser abalados como barbaramente atropelados, ultrapassados e desrespeitados.

O Governo Regional juntou-se à Madeira Parques em dois caricatos processos cautelares que pretendem primeiro impedir a regularização de situações perfeitamente ilegais, e depois deitar mão a bens que são da população de Santa Cruz para os entregar a um bando de meninos mimados que presidem a uma empresa pública de obscuros interesses para o bem comum.

Não contente com este feito, o Governo Regional, nas declarações públicas que tem feito sobre as decisões do tribunal, que determinaram a suspensão da eficácia dos Regulamentos da Hasta Pública, vai mais longe na leitura das superiores decisões da justiça, reclamando como seu e dando como adquirido uma propriedade que sabe não ser sua.

Não faz qualquer sentido reclamar o disparate do usucapião quando é o município que tem a titularidade dos prédios, sendo esse facto do total conhecimento do Governo Regional, e indo esse mesmo disparate ao arrepio do prometido pelo Presidente Miguel Albuquerque, na sessão solene dos 500 anos de Santa Cruz, quando manifestou a intenção e prometeu resolver a situação do Parque Industrial da Cancela com ganhos para o Município.

Quem assim falou sabe que não estava a falar de algo que era seu, mas de algo que pertence ao povo e ao povo tem de ser devolvido. Não quero acreditar que se possa dar com uma mão, mesmo em jeito de promessa, e depois retirar com a outra.

Eu e o povo deste concelho ainda queremos acreditar que as instituições pautam a sua ação pela boa-fé. Eu e o povo deste concelho ainda queremos acreditar que não nos vão tirar o que é nosso. Eu e o povo de Santa Cruz estamos de boa-fé e queremos, acima de tudo, regularizar o que está ilegal, tirar proveito do que é nosso e fazer uma gestão transparente e proveitosa para o Município.

Eu e o povo de Santa Cruz preferimos, ainda, acreditar que a boa-fé vencerá e que o interesse da população está acima dos interesses pouco claros de meia dúzia que querem segurar o ‘tacho’ à custa da propriedade alheia.

Filipe Sousa