Não há conversa sobre alimentação, nutrição e dietas que não acabe forçosamente por passar pela quase obrigatoriedade de ter uma alergia ou intolerância alimentar. Quando não se consegue perder peso, quando não se obtém os resultados desejados, há sempre a tentação de seguir o caminho mais fácil, o da culpabilização ou diabolização de um alimento, muitas vezes influenciados pela informação que nos chega de A, B ou C, ou por um grande poder de sugestão. Em saúde não nos podemos basear em suposições, em sugestões e em diagnósticos de revistas. As alergias e intolerâncias alimentares são doenças sérias causadas por alimentos que exigem um diagnóstico médico e um tratamento/acompanhamento nutricional individual e personalizado. Ora vejamos: a alergia alimentar e´ uma reacção que ocorre quando o sistema imunológico reconhece erradamente um alimento como uma entidade agressora ao organismo. Os principais alimentos envolvidos são o leite de vaca, trigo, ovo, soja, amendoim, frutos secos, mariscos e peixe. As reacções alérgicas envolvem manifestação dos sistemas cutâneo, gastrointestinal, cardiovascular e respiratório, e podem provocar morte por anafilaxia, uma reacção sistémica grave. As alergias alimentares são tão perigosas que um simples beijo de alguém que tenha ingerido a substância à qual somos alérgicos pode ser o suficiente para nos causar a morte. A intolerância alimentar caracteriza-se por uma reacção adversa, reprodutível, que ocorre após a exposição a um determinado alimento, sem qualquer resposta imunológica. É exemplo disto a intolerância à lactose, à frutose, entre outras. Um diagnóstico de alergia alimentar é feito após provas de provocação oral e por testes cutâneos, em ambiente hospitalar com a presença de um médico. Nas intolerâncias alimentares o diagnóstico é menos específico, passando essencialmente pela realização de uma boa história alimentar, mas sobretudo por dietas de exclusão, ou seja pela remoção e reintrodução de alimentos na dieta diária e avaliação da sintomatologia. Os célebres testes de intolerâncias alimentares que proliferam, em consultórios, farmácias, são uma perda de dinheiro, de tempo e desgaste da nossa saúde. A massificação da utilização destes testes levou a que a House of Lords, do Parlamento Inglês, através do seu Comité para a Ciência e Tecnologia, emitisse um parecer a alertar o governo e a população para o carácter fraudulento destes testes, que não possuem qualquer validação ou comprovação científica.

O que sabemos é que mais de 20% dos adultos e crianças alteram hábitos alimentares por causa de supostas alergias alimentares que não têm e isto tem óbvias consequências na nossa saúde. Quando eliminamos alimentos chave da nossa alimentação, como é o caso do leite e dos cereais, e não fazemos a devida compensação nutricional dessa ausência, isso traz danos, principalmente se estivermos a falar de crianças em idades precoces, onde podemos estar facilmente a comprometer o seu desenvolvimento e o seu crescimento. Se eu vos disser que, por exemplo no caso das alergias alimentares, que todos já percebemos ser uma situação clínica grave, pensa-se que o caminho a seguir será o da indução da tolerância ao agente alergénio e não a eliminação total do alimento da alimentação diária? O mecanismo é simples, passa por fornecer a dose tolerada por cada indivíduo de forma a criar habituação e deixar de existir a resposta imunológica indesejada do organismo. E se a isto acrescentar que muitas pessoas com intolerâncias alimentares comportam determinadas quantidades do alimento ao qual são intolerantes, bastando muitas das vezes corrigir doses ou frequências. A eliminação total parece cada vez menos correcta, não é?

Para terminar, foco a questão financeira, deixando-vos as seguintes perguntas: não sendo intolerante à lactose porque há-de pagar mais de 2€ por uma bebida de arroz/soja ou 1,44€ por um leite sem lactose, quando tem um leite de vaca a 0,64€? Porquê pagar 0,82€ por um iogurte de soja ou 0,64 € por um iogurte sem lactose, quando tem um iogurte natural de leite de vaca por 0,17€? Há modas e modas, e esta é uma daquelas em que você quer definitivamente estar “out”.

Joana Silva Afonso, Nutricionista