Cada vez mais me convenço que as fábulas são fato contos de moralidade popular e uma das mais esclarecedoras é a da galinha dos ovos de ouro. Como é evidente não quero, de forma nenhuma, menosprezar o trabalho da (minha) Polícia, que dentro do que lhe é confiado pelo próprio Estado, realiza importante papel de combate à criminalidade e em muitos casos, o esforço e a criatividade da grande maioria dos nossos profissionais de polícia, profissionais abnegados e empenhados, atuam na boa-fé, prestam um serviço relevantíssimo a favor do Estado e acima de tudo da sociedade. Mas, à que entender e aceitar, que os tempos mudaram e mudou a própria Polícia. Algumas esquadras e postos policiais desapareceram e os poucos elementos ditos por patrulheiros, que são vistos nas ruas estão restritos a determinadas áreas e a determinados horários. Já houve tempos de polícia comunitária por exemplo na cidade do Funchal, nos anos 80 e 90, eram comuns os patrulheiros andarem espalhados pela cidade, transitando pelas ruas, conversando com as pessoas e ajudando-as (não quer dizer que não o façam nos dias de hoje, mas de forma diferente), fazendo parte do cenário da nossa capital. Não havendo distinção de comunidades, nós estávamos nas ruas, nos becos, nas veredas, nos caminhos e nos poucos bairros sociais, pouco ou nada importando se as pessoas seriam ricas ou pobres, se centrais ou periféricas, se comerciais ou residenciais. A realidade era que caso alguém necessitasse de ajuda não precisava andar muito. Em qualquer ponto da cidade do Funchal encontrava-se um Polícia fardado a quem recorrer. Toda a nossa Polícia era comunitária porque este conceito está definido em qualquer elemento policial afinal, ela trata com as comunidades e as integra. Todavia, o conceito de polícia comunitária também se modificou. As polícias, que deveriam ser comunitárias na sua totalidade, dividiram-se em diversos modelos para acompanharem os novos tempos e padrões das suas congéneres europeias. Que fique bem claro que nesta minha opinião, não pretendo em nenhum momento desprestigiar contra os novos modelos de policiamento em vigor, depreciar ou ridicularizar o trabalho das Polícias em Portugal, pois na verdade as instituições cumprem o seu papel dentro de uma delegação legal do próprio Estado. Note-se por exemplo o caso da PSP, em que este organismo policial sente-se por vezes impotente e incapaz para debelar sozinho a crescente onda criminal que assola todos os lugares especialmente, tomando, por exemplo a perda de profissionais dos seus quadros e a sucessiva falta de meios materiais. Por estas razões, algumas vezes a PSP é quase obrigada a desviar-se das suas missões constitucionais, para atuar também em áreas como a saúde, a assistência social e a educação, entre outras, chegando a haver, inclusive, ênfase nestas tarefas em detrimento do que é inerente à atividade policial. Acabou substituindo órgãos especializados que deveriam estar presentes para atendê-las nestes setores. Enquanto isto, as demais comunidades que não se enquadram em tal grau de necessidade, não porque o poder público esteja presente, mas porque possuindo algum recurso suprem-se particularmente naquilo em que o Estado falha - o que não é pouco - transformaram-se em comunidades sem Polícia. O patrulheiro que antigamente transitava sorridente pelas ruas e praças, independente da classe social do bairro, que conversava, cumprimentava e até discutia futebol com os moradores e os conhecia pelo nome, tornou-se raridade, se é que ainda existe. Há premência em se desmascarar o Estado, e por isso a importância da participação da sociedade civil como um todo. Nestes tempos em que um novo governo se assentou no Estado, bom seria que o conceito de polícia comunitária fosse novamente revisto, para voltar ao valor de antigamente. Que a saúde, a assistência social e outras necessidades fiquem ao encargo dos órgãos ligados às respectivas áreas afins, redistribuindo-se a polícia em todos os lugares para exercer suas missões constitucionais de efetivamente proteger as comunidades indistintamente. Quem sabe voltemos a ver novamente o patrulheiro nos seus giros policiais, alegre e sorridente próximo dos cidadãos e o mais importante é conhecê-lo e chamá-lo pelo nome. Confesso que tenho saudades desse tempo e da minha parte, já vi matarem muitas galinhas dos ovos de ouro. Quantas situações nos remetem a esse sábio ensinamento, onde faz todo o sentido o velho ditado " Quem tudo quer, tudo perde.

Adelino Camacho O Dirigente Nacional e Coordenador Regional da ASPP/PSP - Madeira