Nos próximos dias deverei ser constituído arguido, por acusação em dois hipotéticos crimes, ambos com acusação explícita e convicta da família Jardim: sogro e genro. Portanto, estão a ler provavelmente um dos maiores criminosos da actualidade na RAM. Acusado de dois crimes que valem a imposição do termo de identidade e residência. Vivo, por isso, momentos de sentimentos mistos. Por um lado, envergonhado pela minha conduta pública que me obriga a explicar à Maria Clara e à Matilde a presença de gente fardada de polícia pela casa dentro, à procura do pai para a necessária notificação pessoal, não uma, mas várias vezes; por outro, experimento uma sensação inédita de estabelecer conversas amigáveis, quase carinhosas com os agentes da autoridade que me informam que serei arguido e que tenho 15 dias para me defender; finalmente, mas não menos importante, sinto também uma notável falta de arrependimento, colocando em causa o sistema judicial português, no seu mais nobre objectivo.

Portanto, resumindo, informei à minha mulher que vive com um arguido e que, por isso, pode tomar as decisões que entender; pedi desculpa aos meus pais que sempre me ensinaram a estar do lado certo da história e, como não podia deixar de ser, expliquei às minhas filhas que os polícias eram meus amigos e procuravam uns senhores maus que prejudicaram os madeirenses ( a simpatia e o carinho com que me trataram ajudou a credibilizar esta tese).

Já ao leitor importa lembrar os meu crimes para descansar a minha alma e viver com razoável comprometimento com os princípios de bem, que norteiam a sociedade madeirense, assegurando assim a boa integração social de um criminoso.

Em 2009, julgo não falhar a data, escrevi qualquer coisa que, imaginem esta doideira, acusava o então Presidente do Governo Regional de ser um dos principais responsáveis pela corrupção na Madeira. Na verdade não sei onde estava coma cabeça. Era uma conclusão absolutamente oca de fundamento e até o mega processo Cuba Livre justificou o absurdo do meu pensamento: passaram 5 anos e confirmou-se que eu, afinal, devia era ter escrito que o então Presidente do Governo era um menino de couro e, normalmente, tomava as decisões com crucifixo na mão, temendo a Deus por correr o risco de pecar, ou mesmo bebendo água benta durante os almoços para assinar contratos, de modo a garantir a transparência das suas acções . Mereço, por isso, este castigo.

Mas mais, não sou um simples criminoso. Estupidamente fui mais longe e voltei a tropeçar neste mau comportamento. Com a cabeça a pedir que ceda ao vício de transgredir, já não sei bem porque carga de água, tive de me meter com o genro do “ menino do coro”, um tal Senhor Tropa! E, em 2013, depois de 4 anos de abstinência e controlo da dependência perante a vertigem de difamar, escrevi um artigo neste mesmo Diário cujo título era “O genro maravilha”. Pronto, caldo entornado. Fartei-me de deambular por situações impensáveis e mesmo impossíveis de acontecer. Acusei o Senhor de aproveitar-se da condição de genro para fazer trafulhices no Atalaia living care. Um estabelecimento benzido pelo clero local, que tinha sido um hotel mas que este anjo caído do céu, apadrinhado pelo tal menino de coro, resolveu dar corpo a uma entidade que só faz o bem e que cumpria e cumpre tudo o que nosso Senhor no céu pede e o genro na terra executa.

Desculpem. Espero não voltar a cair na tentação .

Carlos Pereira, Presidente do PS-M