Eu sei que na quadra pascal a tradição manda jogar ao pião, à bisca e ao balamento. Mas noto que nesta santa terra, e mesmo nesta semana santa, o entretenimento que mais atrai algumas entidades com responsabilidades regionais é o jogo das escondidas. E o curioso é que são cada vez mais os casos em que o objectivo do jogo não é comunicar, é esconder. Mais curioso ainda: são alguns serviços de comunicação que mais praticam esta modalidade. Em muitos casos comunicam tarde e mal e quase sempre esforçam-se por esconder cedo e bem. Também sei que informação e comunicação não são propriamente a mesma coisa. E que assessores e jornalistas actuam em tabuleiros paralelos. Que os objectivos de uns não são necessariamente os de outros. Que as metas de uns não são as de outros. Tudo isso parece claro. E até percebo que alguns serviços de comunicação procurem esconder certas falhas ou omissões. Mas tenho muita dificuldade em aceitar essa estratégia quando em causa estão informações de relevante interesse público. Como é, sobretudo, a área da Saúde. Entre vários outros exemplos, sublinho apenas o último: a Madeira admite agora dois casos de infecção pelo vírus Zika. Que fizeram as autoridades regionais? Reportaram formalmente os dois casos à Direcção-Geral de Saúde enviando um comunicado para Lisboa que não divulgaram aqui. E que fizeram além disso? Suponho que lavaram as mãos e ficaram à espera que, por cá, ninguém desse por nada. Ou seja, temos dois casos de Zika na Madeira e o Serviço de Saúde limita-se a depositar uma comunicação na autoridade nacional. O mesmo serviço que insiste, e bem, nos anúncios sobre como evitar a propagação dos mosquitos, neste caso fez exactamente o contrário. Limitou-se a dar a informação mínima indispensável. Informou a Direcção Geral de Saúde. Esqueceu a população madeirense. Deliberadamente, essa informação foi omitida até ao limite do possível. Foi escondida aqui, embora estivesse à vista em Lisboa. Na prática, foi varrida para debaixo do tapete. O espírito pascal que vivemos leva-me a conceder que não se trata de uma informação agradável, que não é simpática nem concorre para a melhoria da imagem da Madeira. Nem sequer dá direito a qualquer prémio. Mas é informação pura que deve ser oportunamente revelada, de forma correcta. Para quem gosta de jogar às escondidas com coisas sérias e públicas, lembro apenas que no último grande jogo desse campeonato em que a Madeira é campeã nacional, foram os milhões e milhões de dívidas escondidas durante anos. Nesse caso, estamos todos, mas mesmo todos, a pagar uma pesada factura. E o pior: por muito escondida que tenha sido essa trafulhice, acabamos por saber sempre alguma coisa. Não tudo, mas o suficiente para não ficarmos eternamente na total ignorância e sabermos a razão do castigo de uns bons anos em austeridade forçada. Acabemos com o jogo das escondidas e voltemos ao saudável balamento, ao pião, ao jogo do lenço e outras brincadeiras. Já chega de escondidas e de brincar à (a)pilhagem.